Quem está implicado no intrincado mundo da educação, por alguma razão almeja ajudar o outro numa vertente da sua formação: para a sobrevivência deste perante os desafios do quotidiano, para se tornar mais um parceiro nas responsabilidades socialmente partilhadas, ou outras grandes ou pequenas razões…

Mas educar não é uma exclusividade dos mais velhos em relação aos mais novos. Sabemos que a educação é muito mais do que alfabetizar… embora a pedagogia inerente à alfabetização/literacia já dê suficiente ocupação aos professores.

Muito se debate sobre a educação. Contudo, a educação de que menos se fala é aquela que é continuada na adultez e que quantas vezes tem contornos coercivos mais ou menos espontâneos entre os adultos, na sua vida relacional, sujeita aos percalços por conta própria ou grupal, numa ação que pode ser de mais ou ser de menos consciência; não obstante a maturidade da experiência de vidas mais longas…

Perante estas investidas (re)educativas a que todos nos vamos mutuamente submetendo para nos ajustarmos no dia-a-dia, o que realmente esperamos conseguir uns dos outros?

Será que as nossas atitudes visam conseguir alcançar o melhor de cada um de nós ou somos orientados e preferimos agir segundo um comportamento padrão discreto de imitação grupal?

A educação extravasa a escola e não acaba com o fim da escolaridade. Quaisquer metas na educação são (quase) um mito de eterno retorno, na medida em que são ciclicamente reformuladas e delineadas por polos não opostos, porque são complementares: os sucessos e os fracassos.

Segundo o académico Nietzsche, a realidade não tem objetivo ou finalidade (pois se tivesse já a teria alcançado). Por isso a alternância nunca finda. O tempo infinito e as combinações de forças finitas em conflito que formam cada instante fazem com que tudo se repita infinitas vezes. Assim, vemos os mesmos factos retornarem indefinidamente.

Avanços e recuos em cada ciclo.

E nos cíclicos momentos avaliativos da educação, os dissidentes são muitas vezes penalizados. Porque ser diferente não costuma ser um registo facilitador na vida comunitária. A não ser quando se consegue aceder ao «modo de senhorial»…

«Todos diferentes, todos iguais», sendo uns mais iguais do que outros…

No genérico quadro de mérito social a que o comum educador aspira, há também uma tendência para a acumulação de funções autoassumidas: cada um tenta ou acaba por fazer papel simultaneamente de educador, juiz, psicólogo, padre, polícia, comentador, humorística, cronista de opinião… em causa alheia. As mais das vezes sem a competência mínima para as ditas valências que chamamos para nós.

Afinal, quem sou eu para avaliar o mérito do outro?

Até em ambiente escolar, em que existe uma distância humana mínima necessária para haver imparcialidade no processo avaliativo, os professores questionam o mérito pessoal dos alunos bem-sucedidos quando acham que estes não o mereceram porque não trabalharam o suficiente para tal…

Sabemos que a afirmação excessiva do eu pode perturbar a boa sociabilização. Mas sabemos também que a ordem instituída não gosta de ser questionada. E o comportamento perscrutador e distinto é muitas vezes um incómodo e um alvo a abater.

As sociedades das nações, um dia, terão de instalar uma comissão mundial para debater à séria o fim do estatuto individual/grupal que permite o abuso liberalizado das armas comportamentais e discursivas como a intriga, a difamação, a manipulação, a chantagem emocional e a mentira. Sejam quais forem os motivos para o seu uso…
É um ato grave de corrupção tentar massificar o pensamento individual.

E nós somos o que pensamos (Buda).

Se não, vejamos: Se tivéssemos que eleger alguém para a categoria de melhor ser humano, quem afinal, de todos, escolheríamos? (Ou somos todos bons, ou nem por isso, bem pelo contrário)?

Os cristos, os sábios, os pais, os músicos, os professores, os médicos, os investigadores, os humanitários, os artistas, os jornalistas, os filhos, os alunos, os futebolistas…?

Pensar sem medos e sem preconceitos faz muito bem à saúde. Pensemos nisto.

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Rosa Duarte

Professora e mestre em estudos portugueses
Rosa Maria da Silva Candeias Tavares Duarte nasceu em Alcântara. É investigadora do CHAM e professora de Português. É mestre em Estudos Portugueses e desde 2010 doutoranda na FCSH em Línguas, Literaturas e Culturas, na área de Estudos Literários Comparados. Fundou dois jornais escolares. É conhecida no meio fadista como Rosa Maria Duarte. Tem dois cd's editados: “Fado Que Cura” e “Fado Firmado”. O seu blogue pessoal é “A Batuta do Olhar”. É casada e tem dois filhos.

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