O ambiente possui ainda muitas áreas que não estão exploradas e estão a crescer em Portugal. É importante considerar o ambiente nas várias vertentes de conservação da natureza, proteção ambiental e gestão ambiental mas também podemos tirar proveito do ambiente para produzir produtos com interesse económico através, por exemplo, da biotecnologia marinha. Produtos de cosmética, farmacêuticos, alimentares e combustíveis usando algas, bactérias ou outros organismos vivos no ambiente podem ser produzidos a partir de biotecnologia marinha e usando os recursos ambientais de forma sustentável.

A biotecnologia permite desenvolver muitos produtos quando aplicada à agricultura, transformação industrial, medicina ou tirando partido da exploração dos recursos existentes nos habitats aquáticos. Deste ponto de vista, a biotecnologia marinha é a que está mais diretamente relacionada com o ambiente e se pode rentabilizar para a produção de produtos uteis ao homem. A área de eleição da biotecnologia marinha é a aquacultura onde se podem obter uma infinidade de produtos, para além de alimento, podem ser obtidos compostos com interesse medicinal, biocombustíveis, enzimas, bio polímeros, compostos orgânicos e ainda se podem criar outras atividades complementares relacionadas com os próprios processos biotecnológicos, investigação, gestão de ecossistemas e bioremediação que contribuem para o que se designa por economia do mar.

A aquacultura cria um ecossistema natural para o cultivo de diversas espécies de nécton, organismos benticos e micro- e macroalgas. A aquacultura para produção de alimento resulta da escassez de espécies marinhas através da pesca intensiva para fazer face às necessidades de consumo e houve necessidade de criar alternativas para garantir a sustentabilidade ambiental dos ecossistemas marinhos. No estuário do rio Sado existe uma percentagem relativamente elevada de aquaculturas de peixes e bivalves e ainda existe área disponível para aumentar a capacidade produtiva. Existem também ótimas condições para a produção de sal no estuário do rio Sado embora esta atividade, desenvolvida no passado, entrou em declínio e muitas das zonas afetas à produção de sal têm sido convertidas para aquacultura.

A aquacultura de produção de peixe é uma atividade muito importante economicamente e em expansão em diversos países da União Europeia (UE). Listam-se alguns exemplos de distribuição das produções mais importantes, pelos diversos países da UE como Noruega (salmão), Espanha (mexilhão, pregado), França (ostra), Irlanda (ostra), Holanda (linguado), Grécia (robalo e dourada) e Itália (truta). Estas distribuições não são exclusivas de cada país mas representam as mais importantes.

Para além disso, na biotecnologia marinha, a partir de cianobactérias e organismos planctónicos podem extrair-se diversos compostos como toxinas e compostos orgânicos com as mais diversas aplicações. Do mesmo modo, ao nível das bactérias que habitam os fundos marinhos é possível enriquece-las em laboratório e extrair substâncias que funcionam como estruturas de defesa contra outros organismos mas que podem ter importantes propriedades medicinais para o homem. No mar profundo da nossa costa existe potencial para explorar zonas ainda pouco exploradas onde existem organismos com características próprias que podem produzir produtos como proteínas, enzimas ou outros compostos que podem ser resistentes a pressões elevadas e condições extremas e cujas aplicações poderão ser nas áreas alimentares, cosmética e farmacêutica.

Outra utilização importante da biotecnologia marinha na proteção ambiental é na captura de dióxido de carbono (CO2) para crescimento de microalgas. Esta é uma atividade florescente em empresas que apresentam elevadas taxas de produção de CO2. As algas produzidas podem ser usadas na produção de biocombustíveis. Outras espécies de algas podem ser cultivadas e usadas para fins alimentares.

As indústrias mais desenvolvidas em Portugal que envolvem tecnologias de biotecnologia marinha, por ordem de importância e áreas de atividade, são: biocombustíveis, bioreactores, alimentação e rações, compostos naturais e por último tratamento de água e bioremediação. A maioria destas empresas situa-se na região de Lisboa, centro e algarve.

A expansão da plataforma continental e da zona económica exclusiva portuguesa marítima aumentou recentemente, nomeadamente associada à zona dos Açores e muitas das políticas nacionais e europeias têm vindo a promover o investimento na biotecnologia marinha associada à valorização ambiental de recursos naturais. Existem vários sistemas de incentivos à criação de atividades e investigação nos programas Horizonte 2020, Oceano XXI, Mar 2020, Promar e outros programas de financiamento para o desenvolvimento das atividades relacionadas com a biotecnologia marinha.

De acordo com diversas fontes, a economia do mar associada à biotecnologia marinha poderá gerar cerca de 5000 milhões de euros até 2030. Mais de 50% do mar da União Europeia é português e poderá potenciar esta economia também designada por economia azul. O número de empresas na área da biotecnologia marinha ou azul em Portugal é, atualmente, cerca de 10 a 15 vezes mais do que em 2010.

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Ricardo Salgado

Coordenador do curso de Engenharia do Ambiente
Docente e coordenador do curso de Licenciatura em Engenharia do Ambiente da ESTSetúbal; Investigador na área do Ambiente, em particular no tratamento de águas residuais.

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