Conheço muito poucas pessoas sem telemóvel, sem carta de condução de automóveis ligeiros, conta de email ou página numa das várias redes sociais. São tão poucas que quase as esqueço. Mas que existem é uma certeza. Umas estão mais perto, são amigas e amigos próximos; outras mais distantes, consideradas apenas como conhecidas ou amigas de amigos. Escapam à razão. Parecem estar deslocadas do mundo. Aparentam viver fora do progresso e alheadas da felicidade.

   

Tenho um amigo, um grande e velho amigo – embora a idade seja, de facto, o menos relevante nesta descrição – que não é contactável por telemóvel, por email ou qualquer outro recurso com origem na maré tecnológica e comunicacional em que nos movemos. Acrescento que também não lhe conheço carta de condução ou a posse de quaisquer competências nesse campo. E, todavia, todos lhe reconhecemos a extrema inteligência, a capacidade de iniciativa ou empreendedorismo, assim como a grande mobilidade que imprime diariamente à sua vida, tanto do ponto de vista profissional como no pessoal. Não vive noutra realidade, nem é extremamente dependente da assistência, de outros, ou das mordomias de alguém, em particular. É assim mesmo, por escolha própria. E todos ficamos surpreendidos, a sentir-nos quase a atingir o limiar daquilo que se pode designar por estado de ofendido, por esta sua opção tão consciente, contracorrente e afrontosa.

   

Também o meu amigo tem direito a possuir e utilizar um meio de comunicação portátil, de trazer no bolso, a deslocar-se em viatura própria, a receber mensagens, pelas mais eficazes e rápidas vias de comunicação à distância e sem fios. Já não falo de ter smartphone, nem iphone, tablet ou ipad… Bastava que tivesse um simples telemóvel ou a conta Hotmail, e ficávamos todos bem mais descansados com a sua integração social. Para socializar, este meu amigo marca os seus encontros através de telefone fixo ou procura-nos em pontos-chave, como os cafés, por exemplo. Ele lá desenvolveu e tem as suas estratégias. Aquilo que posso testemunhar é que, com a regularidade permitida pelas nossas vidas profissionais, amiúde, trocamos ideias. Conversamos, rimos, opinamos – e tudo isto é feito ao vivo e a cores. Enfim, ultrapassamos com naturalidade aquilo que aparenta ser uma barreira à plena socialização. Naquilo que me compete, até hoje, o máximo que consegui foi prescindir da televisão, dos cento e tal canais disponíveis, através do cabo, do zapping e dos noticiários diários.

   

Nada tenho contra a televisão, enquanto meio de entretenimento, com a sua importante componente cultural. Nem tão-pouco procuro alhear-me do que se passa no mundo. Não me movem quaisquer razões de índole ideológica, a não ser a preservação do meu tempo de estudo. Sim, refiro-me aos três períodos em que aprendi a dividir o dia. As oito horas de sono seguidas pelo mesmo número de horas para trabalhar e, por fim, o terceiro período dedicado ao estudo – o que quer que isso signifique. Pretendo preencher esse tempo da melhor forma. Fazer as escolhas que não dependam de programadores, shares de audiências ou opções de prime time.

   

Recuso a classificação uniformizadora, em que não passamos de números, pontos ou algoritmos. Leio, oiço música, converso e dedico o meu tempo aos mais próximos. Quanto ao mundo que me rodeia, mais ou menos afastado, a poucos ou a muitos quilómetros de distância, prefiro saber dele através de outros meios. Não abandono por completo o papel, no formato de jornal ou revista. De igual modo, não dispenso a navegação nas redes sociais. O papel tem cheiro, é táctil e folheia-se, página a página, em qualquer das direções. A internet e, em particular, as redes sociais permitem fazer escolhas, selecionar, seguir pessoas ou páginas, e a participação em grupos.
   

Sem excessivo entusiasmo sobre o assunto, nem identificando grandes novidades, pelo menos, nos tempos mais recentes, o terreno da tecnologia permite tomar decisões, com um grau de condicionamento menor, em relação à tv atualmente disponível. Não é o número de canais ao alcance do comando da tv, que evita a manipulação da informação. A televisão, nesta era contemporânea, já nem sequer estimula como outrora pelo exotismo de locais e paisagens, naturais e humanas, cuja visão proporciona. Já não estimula a capacidade para viajar. Com raras exceções, limita-se a promover narrativas gastas e obsoletas sobre um mundo, muitas vezes, fechado na dor, na infelicidade e nos medos. Sem hipótese de retorquir, ao consumidor da cultura televisiva atual resta a assimilação desse universo sem retorno.

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Fernando Casaca

Diretor artístico do Teatro do Elefante
Fernando Casaca, diretor artístico do Teatro do Elefante, é mestre em Estudos de Teatro e dedica-se ao fabrico artesanal do teatro para todas as idades. Desenvolve projetos teatrais dando especial ênfase ao texto e à narrativa, sem esquecer que com as mãos, os pés e os sentidos se fazem os mundos e as histórias. Não rejeita a utilização das tecnologias e do audiovisual, quando as consegue manter ao alcance do olhar humano. Os temas que mais e melhor abraça no seu trabalho artístico são as viagens, o mar e o universo fantástico da História, incluindo as lendas e as invenções.

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