As crianças adoram o Carnaval. Na minha infância, eu e o meu irmão transformávamos a nossa sala de estar num cortejo carnavalesco, com fitas e papelinhos, acompanhados pela música do gira-discos, antigo e roufenho, que berrava canções brasileiras. Saltávamos de sofá em sofá e gritávamos, vestidos com roupas dos nossos pais ou de outros familiares.
   
Na rua, víamos o cortejo de Carnaval, que passava pela Avenida Luisa Todi e que tinha algumas das figuras mais emblemáticas da cidade. O Fernando Guerreiro, o Káli, o Zé “dos Gatos”, o Finura, …enfim, pessoas da nossa vida que deram a vida para nos enriquecerem.
   
E eram as pipocas, o algodão doce, o fotógrafo “à la minute”, as meninas vestidas de espanholas e de damas antigas e os rapazes de pescadores e de polícias, e tanta gente, tanta gente, sempre a infringir as regras, atravessando a avenida para o outro lado sem pudor e à corrida, não fosse a autoridade intervir.
   
O passado dá-nos saudades, principalmente dos vivos, que são a nossa principal referência de uma vivência salutar porque rica de significados. A Identidade Coletiva constrói-se de Representações Culturais, e o cortejo de Carnaval, onde tudo valia, era uma dessas Representações.
   
Que as nossas crianças brinquem subvertendo o mundo e por dias transfigurando a vida, fazendo uma brincadeira continua durante o Carnaval e durante a vida. Que sejam o contrário do que são durante as suas vidas inteiras e que se divirtam.
   
Um Bom carnaval!

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Conceição Pereira

Antropóloga e professora desempregada
Cidadã solidária para com a sociedade.

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