Enquanto escrevo estas palavras estamos em pleno rescaldo do referendo na Grécia, onde o “Não” ganhou com 61% dos votos. Uma vitória da dignidade. Uma imensa alegria que abafa a ansiedade que se vive nos dias seguintes ao referendo… O que veio depois já certamente leram ou ouviram nos diferentes meios noticiosos, foi extraordinário…

Mas estamos no Verão, tempo de alegria, de praia… Vamos então à praia.

Dirijo-me para uma das muitas belíssimas praias que nos rodeiam, neste caso a Figueirinha. Mas quando chegamos perto da praia da Figueirinha percebemos que o acesso está condicionado. Uma sinalização vertical indica que a EN 379-1, entre o Outão e o parque de estacionamento do Creiro, é de circulação em sentido único até às 21h. Claro que há sempre excepções, os transportes públicos, as viaturas de transporte escolar, os veículos de emergência, de duas rodas e os veículos devidamente autorizados. Mas eu no meu carro nunca sou uma excepção… Bolas!

E o pior, é que este condicionamento é até 15 de Setembro! Setembro!!… Enfim…

Porque é que eu, um cidadão que tem um carro, que lhe coloca gasolina e que quer ir à praia, não pode regressar às horas que quer? Ainda me dizem que há um autocarro e tal, que faz o percurso de um parque de estacionamento da Secil, onde, aparentemente, o meu precioso veículo fica à sombra, até à praia da Figueirinha, mas custa 1€… Então também me dizem, à e tal, pode vir de autocarro desde Setúbal (que já lhe custa cerca de 4€ por pessoa, bilhete de ida e volta) até à praia da Figueirinha, mas somos pobres ou quê? (bem sei que um país rico não é aquele em que o pobre anda de carro, é aquele em que o rico anda de transporte público, mas estamos em Portugal), sem falar da Tróia, outrora um paraíso para os saltadores dos pontões, hoje em dia um outro tipo de paraíso… Mas deixemos este assunto para outra altura.

Será que já não se pode ir à praia como antigamente, antigamente é que era bom…

Estacionamento em todo o lado, bastava um pouco de criatividade e ali mesmo perto da praia um lugar de estacionamento, isto por toda a extensão da EN 379-1, de ambos os lados, como quisesse-mos, o que facultava interessantes interações rodoviárias no percurso entre o Creio e a Figueirinha, com duas filas de trânsito, uma no sentido Creio e outra no sentido da Figueirinha paradas porque simplesmente não havia espaço para se cruzarem 2 veículos…

E se uma ambulância quisesse passar nessa estrada porque tinha havido um acidente numa destas praias, alguém tinha caído, passado mal, ou tinha nadado até onde as forças lhe chegaram (mas que depois não davam para vir de volta)…

Agora parece que querem nos obrigar a ir para a Figueirinha a pé…

Mas não há problema, não temos que esperar pelas 21h, levamos o nosso carro para a Figueirinha, e quando nos apetecer voltar, simplesmente voltamos, desde que aqueles sujeitos da GNR não estejam a ver. E se todos decidirmos fazer o mesmo? Não há problema. Há sempre uns totós que seguem as regras. Palermas…

Uma coisa que acho incrível, um país onde toda a gente tem sempre tanta pressa que nem pode cumprir as regras, é incompreensível como ainda somos um país tão pobre, com tantos “chicos-espertos” devíamos ser riquíssimos. Mas nisto temos muito em comum com a Grécia, não é só na falta de dinheiro ou o excesso de dívida, mas um excesso de “chicos-espertos”. Mas será este “chico-espertismo”, esta falta de ética nacional ajuda o país a sair da crise ou ainda o afunda mais? Ou então nada disto tem a ver com esta crise, e vamos mas é à praia… pense nisso.

P.S.: Acho que o município deveria, para o ano, ponderar sobre o horário, por exemplo limitar a circulação automóvel apenas até às 20h (coordenando com o período de termino dos transportes públicos), e quem sabe introduzir horários de retorno para Setúbal entre as 11h e as 13h fomentando a saúde dos seus cidadãos (pois deve-se, segundo a Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo, evitar a exposição solar entre as 12 e as 16 horas).

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Rui Pereira

Membro da Direção da Associação Cultural e Artística Elucid’Arte
Nascido em Setúbal, Licenciado em Arquitetura pela Universidade Moderna de Setúbal, Licenciado em Engenharia Civil pela Escola Superior de Tecnologia do Barreiro – IPS, inscrito nas respetivas Ordens Profissionais e Doutorando em Arquitetura, especialidade de Teoria e Prática do Projeto, na Faculdade de Arquitectura – ULisboa. Domínios de atividade profissional: Gestão de projetos e obras, Auditoria e Fiscalização, Consultor e Formador. Membro da Direção da Associação Cultural e Artística Elucid’Arte desde 2008.

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