Finalmente em distribuição, o volume 4 da publicação que dá o título à nossa crónica é editado pelo MAEDS (Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal) e FIDS (Forum Intermuseus do Distrito de Setúbal) e assinala o momento de transição do nosso museu regional da Assembleia Distrital de Setúbal para a Associação de Municípios da Região de Setúbal, por força da lei e da roda do tempo.

Começa por ser um belo livro de 285 páginas, com a capa dedicada à arte da xávega na Costa da Caparica. Poucos se recordarão da embarcação tradicional “Meia-lua”, varada no areal da Caparica, remoendo saudades da Beira Litoral. Mas para os interessados no património náutico português, a presente publicação propõe uma revisitação a este barco singular através  de um portfólio do arquivo fotográfico da Câmara Municipal de Almada e de um artigo da autoria de Ricardo Salomão.

Depois de fazer o seu périplo pelas actividades mais relevantes em que os museus da Região e do Mundo empenham os seus esforços (considerem-se os estimulantes artigos de Mário Moutinho e António Nabais sobre a teoria e práticas museológicas), a revista Musa entra no domínio mais caro ao labor do MAEDS, o da investigação arqueológica. Dois importantes artigos de fundo tornam este volume de consulta obrigatória, ou para ser mais modesta, francamente recomendável. Refiro-me ao texto dedicado às escavações arqueológicas em curso no Castro pré-histórico, proto-histórico e romano-republicano de Chibanes, localizado na Serra do Louro, em Palmela, e à extensa e não menos importante intervenção arqueológica realizada na área urbana de Setúbal, na Rua Francisco Augusto Flamengo, que deu a conhecer o reservatório de água que teria abastecido a cidade de Cetóbriga, e uma necrópole muçulmana da Setúbal medieval-islâmica. O projecto Preexistências de Setúbal conta ainda com mais um artigo, desta vez dedicado à Idade Moderna.

Ao trabalho desenvolvido pela equipa técnico-científica do Centro de Estudos Arqueológicos do MAEDS, coordenada por Carlos Tavares da Silva, juntam-se dois artigos sobre a cidade romana de Miróbriga, de José Carlos Quaresma, e o estudo de uma colecção de materiais inéditos, do Museu Municipal de Santiago do Cacém, atribuível a sepultura megalítica de S. Bartolomeu da Serra, de minha autoria.  Ainda no que se refere ao domínio arqueológico, a Musa4 abre uma pequena janela, pela mão de Paula Alves Pereira, no subsolo de Sesimbra, deixando ver que também naquela enseada encastrada nas penedias da Arrábida, os Romanos construíram um estabelecimento destinado à transformação do abundante pescado do mar de Sesimbra em salgas e molhos, a juntar à produção que em larga escala se elaborava na foz do Sado, quer na margem direita, quer em Tróia, onde em boa hora se constituiu um grupo de arqueologia, coordenado por Inês Vaz Pinto. Sobre o projecto (já realizado) de valorização das ruinas romanas de Tróia pode o leitor obter uma elucidativa síntese nas páginas deste livro.

Ficaria a apresentação da Musa4 muito incompleta se não referisse aqui o extenso e inovador texto da historiadora de arte Maria Teresa Caetano sobre a genealogia iconográfica de muitos dos motivos decorativos dos mosaicos romanos, bem como as entrevistas a dois arqueólogos setubalenses, Carlos Tavares da Silva e Victor S. Gonçalves, que marcam indelevelmente a arqueologia portuguesa dos últimos cinquenta anos.

Finalmente, a Musa4 dedica uma curta e sentida homenagem ao grande ilustrador de arqueologia que foi Jorge Domingos Costa e também à pessoa generosa que entregou o melhor da seu trabalho à causa MAEDS. Um dia virá em que o Executivo municipal atribuirá o seu nome a um arruamento, tal como proposto pela Assembleia Municipal. Saber esperar é uma grande virtude…

Musa – museus, arqueologia e outros patrimónios começa agora a sua viagem pelo mundo, cruzando o local e o supra-regional, a favor do universalismo cultural. Neste tempo difícil, marcado pela impermeabilização das fronteiras europeias à vaga de refugiados sírios, e pela mais ignóbil destruição do património arqueológico nessa área do globo, como no caso de Palmira, cabe aos museus reforçar a sua resistência contra a “besta-fera” da ignorância e da intolerância. A UNESCO começa finalmente a sair da sua letargia e promete reagir com os “Capacetes Azuis da Cultura” na defesa do Património da Humanidade.

Se nas margens do sistema económico europeu (Iraque, Síria, Líbia), ou para lá delas, se instalou o caos e a destruição massivas, em um dos centros do mesmo sistema temos a saudar a inauguração do Museu do Homem, que já havia cedido a sua colecção de 300 mil peças etnográficas para a criação do museu etnográfico do Quai Branly e que agora renasce no velho Palácio de Chaillot debruçado sobre o Sena, para contar a história da evolução humana a partir de três perguntas simples: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Neste museu mundial de Pré-história, a investigação científica ocupa um lugar central. Nele trabalha uma equipa de 150 investigadores que têm ao seu dispor as mais avançadas tecnologias, e um acervo museológico de largas centenas de milhares de espécimenes. A forte aposta na ciência e na cultura é, evidentemente, a única via para o desenvolvimento.

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Joaquina Soares

Diretora do MAEDS
Doutorada em História, especialidade de Pré-história na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com a tese Transformações sociais durante o III milénio AC no Sul de Portugal. O povoado do Porto das Carretas. Pós-graduação em Museologia pela Universidade Lusófona; Curso de Mestrado em Geografia Humana e Planeamento Regional e Local, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Licenciatura em Geografia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigadora integrada da UNIARQ, Universidade de Lisboa.

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