Guardo ainda alguns números da revista Movimento Cultural. E não só na memória os tenho preservado. Em papel também, com páginas numeradas, capa e contracapa como qualquer revista. Como acontece, de resto, com outras publicações de referência dos anos 80 e 90 do século XX, que faço questão de resgatar à voracidade do tempo e ao amarelecimento das folhas de papel. “Em papel”, sublinho, “guardo ainda alguns números desta revista”. E, no entanto, a Movimento Cultural é mais do que isso – mais do que uma memória ou mera referência no espectro das publicações. Sim! é muito mais, porque se tornou incontornável o seu contributo para a construção da identidade de uma região. Dos territórios e das pessoas; cidadãos e cidadãs residentes ou cujos locais de trabalho se encontram no espaço geográfico regional. Gentes que a habitam, a vivem e que nela trabalham; produtores de ideias, bens e produtos de várias dimensões que, em conjunto, fazem o quotidiano da região.

Sim! a revista de que falo marcou indelevelmente uma boa parte da minha juventude. A Movimento Cultural trouxe-nos, “tornou acessível a muitos de nós”, corrijo, a história e as estórias, a investigação científica e a produção artística de muitos membros desta grande e diversa comunidade que é a região de Setúbal. Nomes e personalidades como Michel Giacometti, Borges Coelho, Modesto Navarro, Joaquim Benite, Mário Ventura, Fernando Namora, Urbano Tavares Rodrigues, Mega Ferreira, Sérgio Ribeiro e Rui Mário Gonçalves, entre tantos outros que aqui fica em falta referenciar, colaboraram com maior ou menor grau de assiduidade na Movimento Cultural, editada pela associação de Municípios, sob o impulso e a batuta de Arlindo Mota.

Em boa hora, a Associação de Municípios da Região de Setúbal edita, neste ano, um novo número desta revista, a pretexto das comemorações dos 40 anos do 25 de abril.

Criada em 1985 a Movimento Cultural sublinhou a relevância do poder local democrático para os cidadãos, que se configurava nas novas autarquias, nascidas da revolução de abril. E com o poder democrático, as políticas locais e regionais de incremento do associativismo popular e a participação cidadã; bem como o incentivo dado às iniciativas dos agentes culturais e dos artistas ou criadores. A revista da associação de municípios (naquela época, ainda) do distrito de Setúbal cumpria a sua função, aquela para que tinha sido criada. A divulgação cultural e científica, das realizações e dos projetos em desenvolvimento na região. Lançou documentos, provocou polémicas, ajudou a divulgar elementos para reflexão, sobre a região de Setúbal. Abordou uma grande variedade de aspetos culturais, da História à Sociologia; da Arqueologia à Antropologia; das Artes e dos artistas às Ciências e Investigação científica. Assumiu e deu visibilidade às dinâmicas culturais, que conquistavam campos férteis de desenvolvimento, sobretudo numa região que vivera tão intensamente os tempos da mudança.

Queira o futuro e, sobretudo, a vontade dos atuais responsáveis da associação de municípios da região que as novas gerações possam vir a afirmar que a “nova” revista marcou as suas vidas, tal como eu, hoje, aqui, testemunho.

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Fernando Casaca

Diretor artístico do Teatro do Elefante
Fernando Casaca, diretor artístico do Teatro do Elefante, é mestre em Estudos de Teatro e dedica-se ao fabrico artesanal do teatro para todas as idades. Desenvolve projetos teatrais dando especial ênfase ao texto e à narrativa, sem esquecer que com as mãos, os pés e os sentidos se fazem os mundos e as histórias. Não rejeita a utilização das tecnologias e do audiovisual, quando as consegue manter ao alcance do olhar humano. Os temas que mais e melhor abraça no seu trabalho artístico são as viagens, o mar e o universo fantástico da História, incluindo as lendas e as invenções.

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