Estava por estes dias a ler as notícias e houve uma notícia sobre as migrações por escolaridade que me despertou grande atenção por várias razões. Por um lado, é um tema vivido nos últimos tempos por muitos jovens e famílias portuguesas. E, por outro lado verifica-se que a decisão de emigrar não é muitas vezes uma opção pessoal ponderada, mas, sim a última alternativa para encontrar um emprego com um salário justo e adequado às qualificações obtidas.

   

É consensual que os indicadores de desenvolvimento humano melhoraram de forma significativa em Portugal nos últimos 40 anos, fruto dessas melhorias e de alterações de natureza económica e social muitas famílias conseguiram dar educação aos seus filhos e o acesso ao ensino superior democratizou-se. Em paralelo, as melhorias na saúde aumentaram a esperança de vida e reduziram a taxa de mortalidade infantil, e a par da descida deste último indicador, as famílias diminuíram o número de filhos, gerando-se um saldo desfavorável entre os jovens e os mais velhos.

   

A par destes fenómenos a crise da zona euro dos últimos anos, tem tido efeitos perturbadores no mercado de trabalho e nas taxas de crescimento em vários países europeus, e é provável que tenha agido como uma mudança estrutural também em termos de padrões de migração dos indivíduos com formação superior. A competição no mercado global faz também deslocar no mundo os mais qualificados e talentosos verificando-se que a capacidade de os atrair pode ter efeitos favoráveis sobre a capacidade de inovar e sobre a economia dessas nações.

   

Os últimos estudos sobre migrações, referentes ao período de 2000 a 2010, mostram, que na Europa, as taxas de crescimento muito baixas ou até negativas, o aumento do desemprego e os cortes na inovação e nas despesas de I&D (Investigação e Desenvolvimento) deixaram os países, principalmente os periféricos, como Portugal, mais expostos à saída de cérebros. Estas notícias não sendo boas para os países periféricos, também não o são para a Europa como um todo. Até 2000 os países europeus foram bem sucedidos na atração de pessoas qualificadas, sabendo-se que este fator tem um forte impacto na competitividade das empresas europeias na cena mundial.

   

Dentro da Europa as migrações e a atratividade dos países varia de acordo com algumas tendências:

  

– Pequenos países no centro da Europa como o Luxemburgo e a Suíça registam um balanço positivo na atração e retenção de cérebros;
   

– Entre os grandes países com capacidade de atração o Reino Unido foi o que ganhou mais “cérebros”;
   

– A Irlanda e a Finlândia, em 2010, foram os países que registaram maiores saídas comparativamente às entradas de indivíduos com educação superior, ou seja, um saldo negativo.

   

Uma vez que os dados sobre estes indicadores estão disponíveis apenas até 2010, será interessante continuar a acompanhá-los e verificar se o aumento das taxas de crescimento económico acompanham, ou não, estas tendências, e, se estas têm um carácter temporário ou permanente. Será ainda de registar que estudos realizados sugerem que em alguns países da Europa este processo pode não ser temporário, sobretudo nos países onde existe um maior distanciamento face à média dos indicadores de inovação europeus e onde se regista um maior corte nas despesas em I&D públicas e privadas. Nestes países a capacidade de atrair e reter talentos será muito menor. Alguns estudos mostram que os países que apostam no I&D têm maior capacidade para gerar conhecimento e para promover o crescimento de negócios mais inovadores no médio e no longo prazo, o que provoca um aumento da procura de recursos humanos mais qualificados.

   

Portugal, continua a registar um grande fluxo de saída de jovens qualificados, e não se regista em número que equilibre este saldo entradas de indivíduos com mais qualificações provenientes de outros países.

   

Neste período festivo, viu-se nos aeroportos portugueses muitos jovens a regressarem, registando-se a tristeza da famílias quando os vêem de novo partir até um novo regresso, e assim, muitos pais, entre os quais muitos com apenas um filho ficam por cá à espera da próxima vinda ou do frugal contacto via skype. Esperamos melhores notícias, pois um país que não é para jovens também não serve os mais velhos. Fazemos assim votos que 2015 nos traga melhorias e que permita que todos sejam livres de escolher se querem ou não partir!

   

Fonte:

Bruegel/ImprovingEconomicPolicy, em 17 de Dezembro de 2014

Waging A War For Talent  in Techcrunch, em 17 de Dezembro de 2014

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Luísa Carvalho

Professora na Universidade Aberta
Doutora em Gestão pela Universidade de Évora, Portugal. Professora na Universidade Aberta e professora convidada da Universidade de São Paulo – Brasil. Investigadora do Centro de Estudos de Formação Avançada em Gestão e Economia (CEFAGE) da Universidade de Évora. É autora de livros, capítulos de livros e diversos artigos em revistas nacionais e internacionais e membro de diversos projetos de investigação nacionais e internacionais.

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