Neste final do mês de agosto, o sol já não aquece, as nuvens já povoam o céu e o vento espreita e perturba os mais incautos. Para muitos é sinal de que as férias já acabaram e para os poucos que restam que estão a acabar os dias de lazer. Foi o retemperar das forças, foram as idas à praia, para colher a força do sol, abraçar as ondas, sentir o cheiro e a brisa do mar e poder olhar para as horas e deixá-las passar sem nada acontecer. Os mais audases põem a escrita em dia, lendo de uma acentada aquilo que não conseguiram fazer num ano inteiro, os mais inertes simplesmente contam os minutos deixando-os saltar de hora em hora. O Algarve, terra privilegiada pelo clima e pela natureza que se retrata nas suas praias, acolhe de braços abertos os turistas que a invadem para desfrutarem de todas as maravilhas que aí se escondem. O meu cantinho é Sagres e faço questão de todos os anos poder passar alguns dias neste pequeno paraíso que é a linha derradeira entre Portugal e o Atlântico. É a beleza selvagem de uma paisagem que se tornou rude pela batida constante do vento e é esta envolvência agreste que me fascina. Quantas vezes não pensei, nas breves saídas noturnas em busca de algo aconchegante pelos deliciosos bares da vila, que o que me fazia falta era um bonito biôco. Raúl Brandão (em “Os Pescadores”, Porto Editora) define o biôco como “um trajo misterioso e atraente. Quando saem, de negro, as mulheres envoltas nos biôcos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce… Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado – e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. É uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?… Fitou-nos, sumiu-se, e ainda – perdida para sempre a figura – ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe – cloque…”

Mas foi pelas mãos de Lurdes Silva, professora da Universidade do Algarve, na área nas ciências económicas e empresariais, que ao apaixonar-se por este trajo Algarvio, cujas memorias datam do século XVII, que o biôco renasce mostrando toda a sua grandeza, enquanto peça de vestuário feminino. Esta peça de vestuário entrou em uso em Portugal em 1649, no reinado de D. João IV, e apesar de estar carregada de mitos, que nos permitem ligá-lo ao véu islâmico ou burca, foi extinta em 1892 por ordem do então Governador Civil do Algarve, Júlio Lourenço Pinto, afirmando que se tratava de uma máscara que poderia dar azo a certas libertinagens: “Imagine-se uma frágil pecadora que, vestida de forma a não ser reconhecida, poderia atirar-se sem perigo à aventura amorosa-romanesca ou à façanha de infidelidade conjugal”.

Uma sonhadora e uma apaixonada pela cultura do seu país, Lurdes Silva, sentindo a necessidade de mergulhar na cultura da região algarvia, investiga durante dois anos a história do biôco. Cria a marca biocotradition, e com ela três modelos, com design de Maria Caroço, que sublinham a estética do vestuário feminino: o biôco mistério, o biôco paixão e o biôco tradição que podem ser usados quer no inverno quer no verão. Assim, a novidade deste verão é um biôco, de um tecido leve, com grafitti assinado por Sen Silva – um artista com várias obras públicas em Olhão e com vários trabalhos expostos numa galeria em Almancil. Em todos eles, no interior, no forro da peça, ou no exterior, na própria peça a história deste vestuário contada em português e inglês.

Lurdes Silva, dando azo ao seu empreendorismo nato, não pára e, com a paixão que faz parte do seu ADN, ressuscita esta maravilha que já foi proibida: em janeiro do corrente ano o Bioco Tradition esteve presente no evento, ”Trans Form Arte” em Faro, em fevereiro esteve presente no Club Farense no concerto da Viviane, no qual a própria cantora deliciou os presentes não só com a sua voz, mas também com o biôco que trazia vestido, esteve na FIL, em Lisboa entre 27 de junho e 5 de julho, numa mostra dedicada à inovação, na última semana de julho na Feira da Serra em São Brás de Alportel… e não vai ficar por aqui…tenho a certeza.

Webgrafia:
http://www.biocotradition.com 
https://www.facebook.com/lurdes.silva.9843
http://www.publico.pt/local/noticia/a-burka-tambem-existiu-no-algarve–era-o-bioco-e-dava-liberdade-a-mulher-1698729
http://observador.pt/2015/02/17/bioco-burka-algarvia-que-acabou-por-decreto-vai-uma-mascara-para-o-carnaval/

Fotografia de imtfi

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Margarida Martins

Presidente da Assembleia-geral da Associação Juvenil Odisseia
Fundadora da Associação Juvenil Odisseia em 1998 procurou dar uma resposta alternativa ao associativismo local. Licenciada em Psicologia, Mestrado em Orientação e Desenvolvimento da Carreira e Doutoramento em Excelência Empresarial, trabalha na área da educação há mais de 30 anos. A educação é o seu grande objectivo lutando para a adequação de estratégias perante os desafios do século XXI. No presente, encontra-se a participar no projeto nacional "A New Beginning for Portugal".

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