Quantos de nós já se perguntaram o quanto a vida nocturna mudou? Sair à noite nos dias de hoje, pode tornar-se numa visão muito diferente da que víamos há alguns anos  pois cada vez mais se vê jovens entre os 12 e 14 no convívio nocturno. Nada de mais, não fossem alguns pormenores como as indumentárias femininas que transformam as meninas em supostas mulheres levando alguns ao engano. A maquilhagem, os saltos altíssimos, as microssaias e os decotes tornaram-se num “uniforme” generalizado numa faixa etária com muita pressa de crescer. Muitas não saem assim de casa dos pais, trocam de roupas e maquilham-se na casa das amigas ou nas instalações sanitárias públicas.

   

Claro que podemos colocar questões como: “Mas não foi sempre assim?” “Não te lembras quando eras adolescente? – Também tinhas pressa de crescer”. Certo, mas a questão chave é: – “com que idade é que começaste a sair à noite?” … começou a consumir álcool? …  teve as primeiras conversas sobre sexo? Vivemos numa sociedade que nos impõe um ritmo acelerado de crescimento e quem não acompanha esse ritmo sente-se cada vez mais desenquadrado.

   

Estudos mostram que a sexualidade, o consumo do tabaco e do álcool começa cada vez mais cedo e de forma mais descontrolada. Imaturidade? Falta de informação? Pressões externas? Falta de auto-estima? Desestruturação familiar? Cada vez mais chegam às urgências hospitalares abusos sexuais, grávidas adolescentes e comas alcoólicos em jovens entre os 10 e 14 anos.

   

Quantos de nós já ouviram as adolescentes falarem que “Do meu grupo de amigas/os, algumas já se iniciaram sexualmente, fumaram, tomaram drogas ou já beberam álcool”? As razões de uma sexualidade precoce ou um consumo de drogas e álcool podem estar associadas ao acesso demasiado fácil a informação (televisão, internet, cafés e bares sem controle de fiscalização e vigilância, desestruturação familiar), ao sentimento de insegurança associada à falta de afectos ou à pressão do grupo.

   

Assusta-me a forma como os adolescentes “banalizam” estes temas. Acham normal os seus comportamentos. Acham que nada os atinge, que as doenças estão relacionadas com pessoas mais velhas (não com os lindos/as namorados/as), que o álcool  que consomem não vai alterar o seu corpo e mente porque são novos, cheios de energia e têm “super-poderes”. Acham que o excesso é o normal e aceite por todos, entre grupos e pela comunidade.

   

Longe de querer fazer o papel de juiz ou carrasco, pois defendo acima de tudo a liberdade, é minha opinião que enquanto os principais sistemas que rodeiam o adolescente (família, escola, associações, sociedade e governo) não falarem a mesma linguagem, será difícil inverter a tendência  de uma sociedade individualista em que os jovens, futuros adultos se centrem em si, e em desrespeito pelo outro e pela comunidade onde estão inseridos.

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Heliana Vilela

Presidente da Assembleia Geral da Cooperativa Mil Acessos e Co-fundadora da Associação Meninos de Oiro
Desde 1995 até hoje a exercer funções de TDT – área saúde ambiental. No entretanto, foi presidente da Associação de Estudantes das ESTES Lisboa, Docente no Instituto Jean Piaget em Almada, Delegada e Directora do Instituto Português da Juventude. Fundadora da Associação Meninos de Oiro, uma associação para a defesa dos direitos da criança e jovens em Azeitão e o ano passado fundou em conjunto com outros elementos a Cooperativa Mil Acessos, uma organização que tem por missão promover a inclusão de pessoas com deficiência sensorial em atividades culturais através de produção de recursos de acessibilidade. Gosta de ler, desenhar e música.

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