Quero relatar que ia sofrendo quase um acidente de automóvel. E isto aconteceu porque deixei-me surpreender por uma visão. Não foi a visão de uma mulher bonita ou de um porco a voar. Nada disso. Eu vi um cartaz de grandes dimensões (normalmente designado por outdoor) escrito em alemão. Em Portugal.


O autor desta originalidade foi o Bloco de Esquerda: nele estava inscrito: “Eine Regierung die Deustcher als die deustche ist” – no mesmo cartaz, o Bloco de Esquerda fez o favor de escrever a devida tradução “Um governo mais alemão que o alemão”. O cartaz é dominado por uma foto de Pedro Passos Coelho e de Angela Merkel. A minha primeira ideia foi: “O que é um governo alemão?”


Sim – o que é isto de ser um governo alemão? Que características definem um governo alemão? Tem muitos ministros pouco ministros? Aproveito e pergunto também: o que é isto de ser alemão? Por exemplo, se olharmos para a selecção nacional de futebol da Alemanha, vimos nomes como Khedira, Özil, Podolski ou Gómez – eles supostamente são nomes maiores da Mannschaft e revelam que esta coisa de ser alemão ultrapassa o estereótipo do louro alto de olhos azuis. Para as coisas boas e más, a verdade é que sabemos muito pouco sobre os alemães e por sabermos tão pouco, um partido de esquerda dá-se ao luxo de fazer um cartaz de campanha com uma frase daquelas.


Há uma exploração clara de um sentimento generalizado em toda a Europa sobre a Alemanha – uma espécie de germanofobia que associa um conjunto de estereótipos de rigor, austeridade, organização e sistema. Há um anúncio de uma marca de automóveis alemã cujo slogan é: “It’s a german!” – é um alemão!


Ora, eu não sei o que é isso de ser um alemão. Na minha vida, trabalhei com alguns alemães e confesso que todos os alemães com quem eu trabalhei eram diferentes. Não só eram diferentes fisicamente mas a forma de ser estar destes cidadãos nascidos e criados na Alemanha não era igual: uns eram arrumados e limpos, outros desarrumados e sujos; uns eram dedicados e trabalhadores, outros eram irresponsáveis e preguiçosos… a verdade é que impossível criar padrão homogéneo na definição idiossincrática de uma nação. Impossível.


Antes referi o exemplo da selecção nacional de futebol da Alemanha: a Alemanha é o exemplo de um país que como a imigração gera um contributo inestimável para a afirmação da ideia de um país que deu acolhimento a muitos Portugueses na diáspora da emigração Lusitana.


Para mim, o cartaz é uma demonstração de xenofobia – verdade seja dita, se na esquerda o saco de boxe é a Alemanha, na direita a Grécia tem servido de mote para todo o tipo de disparates ofensivos e demagógicos. Porque se os alemães não merecem as constantes referências ao nazismo, os gregos não merecem ser referidos sistematicamente pela grande maioria dos meios de comunicação social como um povo corrupto e preguiçoso – a natureza da injustiça é a mesma. Dois errados não fazem um certo.


Preocupa-me que um partido de esquerda faça política desta forma – o partido que tem muitos jovens na sua base de apoio e que pugna por valores progressistas e internacionalistas não pode entrar no jogo assim. Esta germanofobia indica-nos que o caminho não é este e que temos dar um passo atrás e repensar um pouco este projecto político que se chama União Europeia.


Por isso, com vivemos no reino das redes sociais e da espuma dos dias mediáticos, declaro: #ichbindeutsche – pode ser que pegue e se transforme também numa moda!

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Nuno Carvalho

Formador profissional
Nuno Carvalho é formador profissional e tem desenvolvido um trabalho na área da Educação Não Formal associada às Tecnologias de Informação e Comunicação. Foi um dos fundadores da Rato - Associação para a Divulgação Cultural e Científica, que tem desenvolvido um trabalho no domínio da inclusão literacia digitais.

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