O tema “fronteiras” é atualíssimo. E atentos, elementos da equipa de investigação coordenada pela Professora Maria Fernanda de Abreu do Centro de História d’Aquém e d’Além Mar (CHAM) organizaram recentemente um Simpósio de três dias (20, 21 e 22 de abril) na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas para debater “Fronteira, Cosmopolitismo e Nação nos Mundos ibéricos e Ibero-Americanos”. Foram momentos de relevante partilha e reflexão.

Sabemos que o fenómeno da globalização reacendeu as questões prementes sobre as regras da emigração, o cosmopolitismo do pobre, o conceito de nação nas suas mais recentes definições… Estas e outras questões foram desenvolvidas pelo Professor e escritor Silviano Santiago na Conferência Plenária de Abertura no primeiro dia do Simpósio, que contou com a presença de figuras como Eduardo Lourenço e José Carlos de Vasconcelos.

Já há 24 anos, o economista e escritor espanhol José Luis Sampedro discorria publicamente sobre o conceito multidimensional de fronteira e sobre a autoria humana das linhas fronteiriças que delimitam o conhecimento, para classificar e identificar o que se entende.

É que a ideia de fronteira pode estar contida em cada palavra e, no plural, erguer fronteiras no mundo da literatura.

A fronteira pode ser encarada como uma porta ou como uma muralha.

Há aqueles que fazem das fronteiras uns altos muros para manter e assegurar o afastamento e a separação daquilo que está do outro lado. Preferem abdicar da liberdade para se esconderem no que julgam ser a sua segurança. Veem a fronteira como uma ameaça porque imaginam o inimigo do outro lado.

Mas felizmente há outros que decidem olhar a fronteira como um convite à descoberta e ao enriquecimento. Esta atitude, no curso do tempo, tem criado possibilidades de evolução na realidade fronteiriça, nos seus vários níveis: social, económico, psicológico, histórico, geográfico, artístico, etc.

Numa atitude de solidariedade, que sempre foi uma emergência nos movimentos migratórios das populações, constata-se cada vez mais a necessidade de soluções concertadas. O próprio desequilíbrio atual das condições do planeta, pela exploração desmedida dos seus recursos naturais, exige um crescente sentimento solidário de empenho e de redistribuição constante de bens.

O nosso mundo está mais anão porque o ranking das telecomunicações exige inovação e concorrência crescentes. E nenhuma cultura pode ter a veleidade de se apartar dos prós e contras dessa realidade proglobalizante.
O lugar que habitamos tornou-se pequeno demais para fazermos vista grossa aos problemas uns dos outros. Mesmo com a consciência de coletivo a teimar pequena…

Há uma culpa agravada nos casos recorrentes de tráfico de emigrantes, que tem enxovalhado indesculpavelmente o rosto das nações. As fronteiras podem e devem ser locais de encontro para o diálogo. Os riscos, em desespero de causa, só se evitam com a atenção institucional à altura.

Não somos todos pobres aldeões deste casario global?

Não é fácil acolher a emigração e legislar em conformidade e concertadamente sobre as necessidades de cada comunidade nos diferentes continentes, sobretudo dos mais carenciados. Mas é uma prioridade de topo. O cidadão não é apenas uma preocupação do seu território. É uma urgência na dignidade conjunta dos povos, ou se quisermos, uma obrigação holística, como é defendido pelas ONG’s.

Será que, sociologicamente falando, o fenómeno da globalização acentua sentimentos, recalcados ou não, de preserva xenofobia e suas variantes?

Refugiados, bichos da terra tão pequenos, no progresso científico e tecnológico que cada dia está mais veloz e absorvente, a boa sabedoria dos povos continua subvalorizada e atrofiada nalgum convés qualquer sobrelotado no Mediterrâneo, a reclamar um pouco de ar e de luz séria de ação humanitária.

Sentamo-nos à espera que chegue a necessária vontade política ou que passe a nossa de reivindicar?

Criança de 74, eu ainda acredito na fronteira que liga a democracia ao esforço comum. É o magnetismo dos cravos colhidos em cada abril e que para longe fazemos por arremessar…

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Rosa Duarte

Professora e mestre em estudos portugueses
Rosa Maria da Silva Candeias Tavares Duarte nasceu em Alcântara. É investigadora do CHAM e professora de Português. É mestre em Estudos Portugueses e desde 2010 doutoranda na FCSH em Línguas, Literaturas e Culturas, na área de Estudos Literários Comparados. Fundou dois jornais escolares. É conhecida no meio fadista como Rosa Maria Duarte. Tem dois cd's editados: “Fado Que Cura” e “Fado Firmado”. O seu blogue pessoal é “A Batuta do Olhar”. É casada e tem dois filhos.

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