O ataque ao Charlie Hebdo foi um ato de uma brutalidade inaceitável, e, além de terrorismo, aparentemente foi também um ato de vingança pelas caricaturas do profeta Maomé. Mas este ato praticado em nome do Islão, atinge, para além das vítimas diretas, todos os muçulmanos crentes e tolerantes, alimentando o sentimento anti-islão.

   

No rescaldo deste atentado, vieram a público movimentos como o Pegida (acrónimo de Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente), islamófobos, por vezes ligados a movimentos de extrema-direita, que no caso alemão, foram recebidos com duras críticas e grandes demonstrações pró-tolerância e anti xenofobia.

   

E em Portugal? Nenhum movimento veio a público, nem qualquer manifestação anti islão foi documentada, mas esses não são o modo do povo português (não que sejamos o povo mais tolerante do planeta, se calhar não gostamos é de andar muito…). Então recebo um documento intitulado “Eurábia”, escrito em português, que nos instigava a nós, europeus, a erguemo-nos contra esta islamização da Europa, e seguia apresentando uma série de dados, alguns estatísticos, outros não, alguns verdadeiros, outros não.

   

Este conceito da “Eurábia” não é um conceito nascido na Europa, mas é um conceito alimentado do outro lado do atlântico. Vamos a uma estória:

   

Era uma vez uma Europa, um continente manietado por ideais de esquerda, uma terra onde os elevados gastos públicos nos conduziram para a destruição do estado social – onde a Alemanha tem menos infantários do que os EUA, onde a França tem a menor taxa de sindicalização no mundo ocidental, onde os hospitais Italianos são imundos e onde a maior parte dos gastos públicos vai para os bolsos dos que mais têm (aqui não está muito longe da verdade, mas deixemos correr esta estória).

   

É uma sociedade culturalmente ateia, exausta, preguiçosa, que parou de ter filhos e está oprimida por hordas muçulmanas “fazedoras de bebés”, prestes a tornarem-se uma maioria e assim impor a lei sharia e o governo islâmico no continente europeu.

   

Mas para lutar contra este flagelo, lá vem o herói americano, o (inserir aqui o seu nome de herói preferido), para lutar contra os malvados muçulmanos…

   

Boa ideia para um filme? Mas voltando ao tópico. O conceito da Eurábia assenta em 3 ideias:

   

Ideia 1. Uma importante ideia para este argumento é a ideia de que os muçulmanos têm mais filhos do que o resto de nós. Há dados que apontam para que 40% da Europa seja muçulmana já em 2020. Pura invenção. Segundo dados oficiais, pouco mais de 4% da população da Europa é muçulmana (embora cerca de 80% dessas pessoas não sejam religiosamente ativas mas simplesmente originam de nações islâmicas). E é possível que estes valores subam até 6% em 2020, se as taxas de imigração e de natalidade permanecem iguais.

   

É verdade que o declínio da natalidade na Europa está a levar a um decréscimo populacional, mas também é verdade que os muçulmanos não têm mais filhos do que a generalidade da população nas mesmas circunstâncias socioeconómicas. Um estudo realizado pelos demógrafos Charles Westoff e Tomas Frejka, documenta isso mesmo.

   

Ideia 2. O segundo passo é que o declínio da crença religiosa e a ascensão do Estado Social e do multiculturalismo levaram os europeus a ter menos filhos e cometer suicídio cultural, capitulando-se ao Islão. Mas segundo o demógrafo Randy McDonald, “na Europa, as populações nacionais com as mais altas taxas de natalidade tendem a ser os europeus do norte e oeste, onde a secularização está mais avançada”.

   

Ideia 3. A ameaça à “Europa cristã”. Mas a Europa já enfrentou uma ameaça religiosa fundamentalista, e não correu mal. Entre 1345 e 1750, a população do continente europeu mal cresceu e durante este período um poder, um terrorista assassino, uma força que odiava as mulheres, teve um poder considerável. Não, não era o Islão, era a igreja Católica. Depois veio o Iluminismo, que retirou poder à igreja, e que curiosamente também contribuiu positivamente para a taxa de natalidade do continente.

   

Mas porque escrevo sobre a Eurábia, uma teoria que não tem qualquer impacto na nossa vida quotidiana ou no desenvolvimento da nossa sociedade? Infelizmente, isto não é verdade. A extrema-direita alimenta-se deste tipo de pensamentos e procura parar o crescimento da Eurábia, por vezes não apenas pelo uso de palavras, mas também através de outros métodos. E apesar de grande parte dos muçulmanos (e grande parte de todas as outras pessoas) que vive na Europa não serem fundamentalistas nem apoiarem qualquer tipo violência, a defesa deste tipo de teorias pode promover comportamentos xenófobos.

   

Um dos promotores deste mito da Eurábia é Mark Steyn, um canadiano de 55 anos, mas que agora tem sido alvo de queixas nos tribunais de direitos humanos do seu país natal devido aos seus discursos de ódio. Mas ele deveria merecer o nosso apoio, pois o direito de expressar o ódio de pessoas, ideias, grupos ou comunidades é importante, e a liberdade de expressão deve ser absoluta e sem limites, ou não?… pense nisso.

   

P.S: e não é curioso que uma publicação obscura, satírica, ofensiva, com pouco valor (na minha opinião) e que tinha uma tiragem de 60.000 exemplares, com este ataque chegue aos 7 milhões de exemplares. Espero, até pela minha saúde, que este não comece a ser um processo de dinamização da imprensa escrita.Fotografia de capa por Kunirosawa

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Rui Pereira

Membro da Direção da Associação Cultural e Artística Elucid’Arte
Nascido em Setúbal, Licenciado em Arquitetura pela Universidade Moderna de Setúbal, Licenciado em Engenharia Civil pela Escola Superior de Tecnologia do Barreiro – IPS, inscrito nas respetivas Ordens Profissionais e Doutorando em Arquitetura, especialidade de Teoria e Prática do Projeto, na Faculdade de Arquitectura – ULisboa. Domínios de atividade profissional: Gestão de projetos e obras, Auditoria e Fiscalização, Consultor e Formador. Membro da Direção da Associação Cultural e Artística Elucid’Arte desde 2008.

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