Pode parecer título de filme hollywoodesco. Pode sugerir produtos de ficção científica, e remeter-nos para uma famosa e antiga série televisiva. É, todavia, um espaço de cultura. Melhor dizendo, de culturas. Falo do Espaço 37.
No centro histórico de Setúbal ganha vida, desde os finais de 2014, uma sala de artes. Inteiramente dedicada à criação artística e ao pensamento. À divulgação de obras de arte, à reflexão e partilha de ideias. Íntima e desafiadora de princípios, cânones e conceitos. Nesta sala acontece, sem concessões de nenhuma ordem, a construção de futuros. No plural, exatamente, porque ali são estimuladas a experimentação e as descobertas dos vários sentidos do futuro. Gerar a diversidade é o principal objetivo.
Espaço informal e projeto temporário. Ambas as equações são verdadeiras e definem um conceito. Eclético. Aberto às mais diversas propostas, do tradicional ao contemporâneo. Acolhe com facilidade experiências futuristas do tempo presente ou a revisitação de objetos do passado. O ´37’ é o número de polícia, inscrito na pedra que ombreia a porta de entrada. Lá dentro, o tijolo do século XVII e a cal acrescentam memórias, às madeiras que suportam as suas vigas. São muitas as estórias para e por contar.
Do cinema à música. E dos debates às animadas tertúlias, à volta de um poema e uma mesa. Tudo (ou quase…) já ali foi realizado.
Encontrei-me nela várias vezes. Encontrei-me com filmes. Com diferentes músicas e com músicos de diferentes origens ou percursos. Conversei e alimentei-me (literalmente!). Reivindiquei e aprendi, partilhando convicções e ideias, em plena construção coletiva. Resumi e desenvolvi comentários ou observações várias, sobre o mundo em que vivo. Em que vivemos. Fui seduzido, agitado e (talvez…) virado do avesso (algumas vezes, sim!), pelas estranhas forças das emoções. Entrei expectante e saí enriquecido, em matéria de liberdade e criatividade.
Uma fragilidade reconhecida, entre outras, é a periodicidade irregular da programação. E, no entanto, há pintura todas as semanas. Cinema e música, pelo menos, uma vez por mês. Há ensaios e exposições, preenchendo um calendário em evolução crescente. A ver se melhora neste aspeto…
Uma mistura de liberdade, construção e solidariedade, junta-se a uma prática de subversão e novidade. Liberdade do seu programa, percurso e objetivos, sem senhores nem amos. Numa espécie de autogestão, de recursos e projeto. Construção constante, no trilhar de novos caminhos artísticos e de criação de pensamento, fundamentados no diálogo, partilha e trocas. Solidariedade, que se encontra no caráter cooperativo e informal do grupo de pessoas que o governa. A subversão está totalmente estampada na forma como se atreve a existir, numa sociedade dominada por marcas, especulação e ganância. Novidade da proposta inovadora, em que consiste. O lema resume-se a duas linhas: “a entrada é livre, mas o espetáculo não”. Aceitam-se contributos, para manter viva a utopia!
Uma casa de portas abertas para o que de mais interessante se faz em cultura e nas artes, com vontade de se mostrar. Procurem-na que vão encontrar um espaço real, onde nada se promete! Apenas, existe.
Fotografia de Leo Hidalgo (@yompyz)

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Fernando Casaca

Diretor artístico do Teatro do Elefante
Fernando Casaca, diretor artístico do Teatro do Elefante, é mestre em Estudos de Teatro e dedica-se ao fabrico artesanal do teatro para todas as idades. Desenvolve projetos teatrais dando especial ênfase ao texto e à narrativa, sem esquecer que com as mãos, os pés e os sentidos se fazem os mundos e as histórias. Não rejeita a utilização das tecnologias e do audiovisual, quando as consegue manter ao alcance do olhar humano. Os temas que mais e melhor abraça no seu trabalho artístico são as viagens, o mar e o universo fantástico da História, incluindo as lendas e as invenções.

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