Podemos acreditar ou não. Relativizar. Aceitar. Banalizar. O que não podemos é ficar fora da História. Somos peças, com maior ou menor intervenção nos acontecimentos, peças de um engenho em permanente devir, a História. E a isto responde, cada um de nós, na medida própria. Podemos limitar-nos a consumir. Ou, ao invés, abordar de forma crítica o que se passa à nossa volta. Participar, até. Calar ou reagir.

Notícias. Cultura de massas. Informação. Redes sociais. Meios e veículos culturais. Que o são, por excelência, dos nossos tempos. E aqui vem-me à memória uma frase conhecida, “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” – e, assim, é! Insofismavelmente. No nosso tempo, mais do que nunca, em que a informação circula à velocidade da luz, não conseguimos ficar de fora. Calados, cegos ou surdos ao que nos rodeia. Ausentes. Transformaram-nos em verdadeiras esponjas naturais e, agora, pelos poros, entram-nos vivos ou mortos os conteúdos, estímulos dos mais variados calibre e tipologias.

E o que vemos, nós? O que domina as imagens e os sons de nossos quotidianos? Cultura do horror. Do sensacionalismo. Das emoções. Respondo.

A cultura do horror, em que o terror e outros ismos imperam. O medo e a insegurança acerca do futuro, individual e coletivo, dominam os percursos. Tudo isso corresponde a um processo de desumanização, iniciado pela industrialização agressiva e a cleptomania da captura dos recursos naturais. Daí às guerras do petróleo foi um passo pequeno, de que somos infelizmente testemunhas em vida. A cultura do horror castra a capacidade de sonhar, transformando a vida num pesadelo assolador. Atrofia. Impede a geração de novos olhares sobre a realidade e, por conseguinte, limita a capacidade de projetar futuros.

Do cinema aos subprodutos televisivos, passando pelas imagens jornalísticas massificadoras, o horror invadiu-nos as vidas, condicionando as dinâmicas pessoais e sociais. Promoção linear de falsas catarses, afinal de contas, experiências geradas pela explosão de adrenalina invasiva, essas narrativas do medo não passam de engodos e analgésicos. Nada, nenhuma relação têm com o fantástico ou a fantasia. E muito menos terão com o grotesco ou o surrealismo. E, no entanto, criam imaginários. “”, diríamos.

O tempo de romper com esta verdadeira ditadura é o hoje! O tempo de incentivar, de patrocinar a inovação. Sem condicionamentos, claro! Mas com a convicção que outro mundo é necessário. E, sobretudo, que outro mundo é possível. Se esta construção passa pela criação artística? Creio que sim! e, também, pela educação estética. Assim como por novas e renovadas exigências, em torno do gosto – um debate que, creio, deve continuar. Ou, ainda, pensamos que os “gostos não se discutem”? Ao Estado compete incentivar a inovação, a par da preservação dos patrimónios, patrocinar ativamente aquilo que ainda não tem o reconhecimento coletivo, por ser novo e transgressor em relação à tradição. Este é um tema de alguma complexidade, envolto em muita demagogia e dogmatismos vários. Tema que gera resistências, muitas das quais justas e pertinentes. Todavia, o debate e as ideias não podem ser reféns de nenhum sistema ideológico, muito menos em nome dos “nomes” da cultura e da inteligência. De que vale citar, recorrer ao pensamento de alguém sem promover aquilo que qualquer pensador mais deseja, o debate das suas ideias. E tudo é feito, vezes sem conta, na presunção da resistência aos tempos bárbaros, que se anteveem.

Gastamos tanto tempo a resistir, quando podemos concentrar-nos na reconstrução. Na reconstrução como ato de resistência, opondo-nos à destruição sistemática que este poder político, dominante na Europa e em vastas regiões do mundo, nos está a impor.

Fotografia de capa por net_efekt

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Fernando Casaca

Diretor artístico do Teatro do Elefante
Fernando Casaca, diretor artístico do Teatro do Elefante, é mestre em Estudos de Teatro e dedica-se ao fabrico artesanal do teatro para todas as idades. Desenvolve projetos teatrais dando especial ênfase ao texto e à narrativa, sem esquecer que com as mãos, os pés e os sentidos se fazem os mundos e as histórias. Não rejeita a utilização das tecnologias e do audiovisual, quando as consegue manter ao alcance do olhar humano. Os temas que mais e melhor abraça no seu trabalho artístico são as viagens, o mar e o universo fantástico da História, incluindo as lendas e as invenções.

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