Desde tempos remotos que o vinho, seja em termos da sua produção ou consumo era vedado às mulheres. Numa fase inicial na Grécia e no Egito o vinho era consumido apenas por homens. Na Grécia, até ao ano 194 A.C. as mulheres não podiam inclusive servir o vinho. Nas fases seguintes da história, haviam discriminações baseadas na condição civil, status ou mesmo em aspetos de caráter fisiológico que as impediam de entrar nas adegas ou participar na produção de vinho, enfim o mundo do vinho era dos homens!

A sociedade evoluiu mas continuam a haver reminiscências destes antigos estereótipos culturais e sociais, sendo referido por exemplo por alguns enólogos as palavras feminino e masculino para descrever alguns vinhos, sendo por vezes os masculinos considerados superiores. Na Austrália, por exemplo até 1983 as mulheres estavam impedidas de integrar júris de concursos de vinho, e ainda hoje, em todo o mundo, elas representam em geral uma percentagem inferior à dos seus pares do género masculino. Durante muitos anos as profissões ligadas à produção e gestão de empresas vinícolas estavam vedadas às mulheres. Porém, as distinções de caráter fisiológico que limitavam o acesso das mulheres a este mundo, acabaram por ser ultrapassadas do ponto de vista técnico pela evolução da sociedade e da tecnologia aplicada à produção do vinho. Mas também por uma particularidade fisiológica provada que tem a ver com o paladar e cheiro. Na verdade, estudos efetuados pela Universidade da Pensilvânia nos EUA pela Universidade de Cardiff no Reino Unido mostraram que as mulheres revelam capacidades sensoriais superiores em termos de olfato e de palato.

Em termos de perfil empreendedor, outros obstáculos se colocavam à entrada das mulheres no mundo do vinho, nomeadamente obstáculos sociais, psicológicos, estereótipos, bem como a dificuldade em conciliar a vida familiar com a profissional, os quais se refletiam no maior aversão ao risco e limitavam a tomada da gestão de empresas vinícolas por mulheres. Também, era por vezes assumido que as mulheres não poderiam liderar estas empresas pois os colaboradores eram homens e poderiam recusar-se a receber ordens ou a trabalhar para uma mulher. No entanto, nos últimos anos esta situação tem vindo a alterar-se por todo o mundo, e cada vez há mais mulheres no mundo do vinho, como gestoras, enólogas e colaboradoras em diversas tarefas, ainda que este setor continue a ser dominado pelos homens e que possa haver um desconforto e um senso de isolamento social de muitas mulheres no mundo do vinho. A atuação das mulheres neste contexto é também diversificada, sendo possível identificar diversos perfis, algumas consideram-se como produtoras de vinho, não importa o género, outras lutam e tentam conquistar espaço no jogo estratégico masculino que tem dominado o setor. Existem ainda casos de mulheres que criaram redes colaborativas para promover a igualdade e para dar suporte aos profissionais do vinho femininos, como é o exemplo da La Donne Del Vino em Itália ou da Vinissima na Alemanha. Também se reportam algumas particularidades no que respeita ao marketing e rótulos das garrafas, sendo que para as mulheres colocar o seu nome no rótulo é um símbolo de confiança e de orgulho.

Mas, enfim, tal como em muitas outras profissões antes vedadas às mulheres, esta área começa a ter por todo o mundo cada vez mais empreendedorismo feminino e Portugal não é exceção, na última década aumentou o número de enólogas e de gestoras de empresas vinícolas, na Península de Setúbal temos alguns bons exemplos desta realidade!

Referências:
Matasar, A. (2010) Women of Wine. The Rise of Women in the Global Wine Industry. University of California Press.
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Luísa Carvalho

Professora na Universidade Aberta
Doutora em Gestão pela Universidade de Évora, Portugal. Professora na Universidade Aberta e professora convidada da Universidade de São Paulo – Brasil. Investigadora do Centro de Estudos de Formação Avançada em Gestão e Economia (CEFAGE) da Universidade de Évora. É autora de livros, capítulos de livros e diversos artigos em revistas nacionais e internacionais e membro de diversos projetos de investigação nacionais e internacionais.

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