Ao iniciar esta crónica começo por realçar os grandes derrotados desta noite, e com facilidade constatamos que o grande vencido nestas eleições, é o PCP na sua expressão eleitoral, a CDU.

É-o, em primeiro lugar, porque desde 2011 que esta força política assumiu como principal objetivo político a derrota do Governo que integrava os dois Partidos, PSD e CDS e ao contrário daquilo que era uma exigência (como o seu líder afirmou diversas vezes) o Governo concluiu o seu mandato de quatro anos e aí está novamente com uma vitória eleitoral obtida neste quadro de exigência e dificuldades. Em segundo lugar a CDU passa de terceira para quarta força parlamentar, sendo claramente ultrapassado pelo Bloco de Esquerda.

Nem a subida de vinte centésimas e o aumento de um deputado disfarçam a realidade da derrota do PCP, que as urnas ditaram.

É tão ou mais que evidente o percurso de derrota e que internamente é sentido como realidade, é o facto de na noite das eleições, Jerónimo de Sousa, anunciar uma série de iniciativas parlamentares que não são mais do que o estrabouchar de um moribundo a agarrar-se ao que lhe resta de vida.

A afirmação “consolidação do seu eleitorado” é o expoente máximo da tendência que se tem acentuado nos últimos anos que o objetivo final é sempre perder por “poucochinhos” e não ganhar por poucochinhos, para usar a expressão agora em voga.

No caso concreto do distrito de Setúbal há a realçar que a CDU perdeu votos e não ganhou deputados que é sinal do mau trabalho desenvolvido pelo poder autárquico, distrito onde a abstenção aumentou substancialmente como corolário do que temos vindo a afirmar.

O Partido Socialista não conseguiu cativar o eleitorado que abandonou os partidos da coligação, essencialmente pelas suas incoerências e falta de visão política em questões do dia-a-dia das populações e dos trabalhadores, tendo optado, mal, pelos grandes temas de estratégia orçamental e politica que à maioria do eleitorado iletrado nada dizem ou dizem muito pouco. Mas não estranhamos, porque é uma tendência que se tem vindo a acentuar.

Não querendo ser contundente para com o Partido Socialista gostaria de afirmar que o seu discurso me fez lembrar uma passagem do auto da alma de Gil Vicente: “-Vós não me desempareis/ Senhor meu anjo Custódio/ Ó incréus/ inimigos que me quereis/que já sou fora do ódio/de meu Deus?…”

Foi o que a campanha eleitoral socialista fez durante o tempo, pedir desculpa sem nunca o assumir, tentar impor as suas propostas sem nunca as anunciar, o eleitorado a querer levá-lo numa direção e os seus dirigentes a tentar esquecer os pecados que cometeram antes de 2011, então passarem ao universo Celeste, ainda que pecadores inconfessos.

Embora perdendo muitos votos e deputados o grande vencedor na noite de contagem dos votos, foi a coligação Portugal à Frente e foi-o depois de um período de governação difícil, exigente e desgastante como o que aconteceu nos últimos quatro anos.

Os eleitores que votaram na coligação tiveram consciência das consequências devastadoras do que seria uma mudança de rumo e objetivos que se colocariam caso os resultados fossem diferentes dos que se verificaram.

Assim, julgo que a interpretação do desfecho eleitoral longe destes aspetos é pura especulação sobre consequências fictícias fora do quadro de resultados.

Agora segue-se um caminho político não menos difícil do que as medidas de austeridade desenvolvidas ao longo dos últimos quatro anos.

A formação do Governo e a aprovação do seu programa na Assembleia da República irão ser momentos de grande debate, negociações e acordos pontuais, gerais e estratégicos que requerem muita responsabilidade, visão política do longo e médio prazo, sem esquecer o imediato e importante para o País e para os Portugueses.

Não podem ser esquecidas as condições de debilidade social de Portugal tanto no tecido interno como no contexto europeu e mundial.

Portugal tem à sua disposição mais de vinte mil milhões de euros para aplicar em políticas sociais estratégicas que, se bem aplicados, irão criar uma génese de superação de muitas dificuldades existentes.
Outro tema estratégico é a questão da sustentabilidade da Segurança Social essencialmente nas fontes de financiamento sustentáveis e que deixem de ser uma consequência da taxa de desemprego ou emprego.
Muito foi feito muito há a fazer, é preciso arregaçar as mangas, trabalhar e lutar por um Portugal à Frente, com coragem, força e seriedade politica.

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Florindo Paliotes

Ex-Presidente da Direção da UDIPSS Setúbal

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