Encontro-me a escrever na semana do natal, semana marcada pela quadra festiva, mas por outros eventos locais.

   

A queda do adolescente no Alegro foi uma tragédia para a família.

   

Este caso parece-me evocar os acidentes nas estradas (algo muito comum nestas alturas festivas) e algo que é quase inerente à espécie humana: ir na estrada, ver um acidente na berma e abrandar a velocidade. Talvez para apreciar a dimensão dos estragos, para perceber pela cara das pessoas que rodeiam os veículos, o estado de robustez dos ocupantes, a culpabilidade dos mesmos e tentar projetar o momento do acidente. Mas quantas vezes já viu algum, das centenas de condutores que abrandam, parar, parar para ajudar na situação, para ajudar os envolvidos no acidente, parar para ajudar a preencher a Declaração Amigável. Nem nós, que também abrandamos, nunca tivemos coragem de o fazer, limitamo-nos a reduzir a velocidade e a exclamar “A culpa foi de certeza do carro vermelho, devia vir em excesso de velocidade”. Hoje, com esta tragédia ainda se passa isso, toda a gente abranda, aponta, atribui culpas e propõe cenários, vejam as centenas de pessoas que em procissão “nataleira” passam pelo local do acidente…

   

Mas é natal. Bem, quando lerem estas palavras já foi natal, e já todos receberam muitas prendas, talvez um novo pijama natalício (com renas ou com o pai natal, mas sempre vermelho, mesmo que essa cor te dê pesadelos durante toda a noite), uma viagem a um destino paradisíaco (onde está sempre calor algo que sabe tão bem nestes dias frios de inverno), um novo perfume anunciado na televisão com o mais ambíguo anúncio de sempre (já viram que quando chegamos ao final do anuncio e ainda não percebemos nada do mesmo, já sabemos que é anuncio a perfumes…) ou um novo smarphone com uma novíssima tecnologia (talvez até faça chamadas, mas tal não é a sua principal função e, possivelmente, nem será necessário) …

   

Queria aproveitar também para parafrasear o discurso de 1979 de Jimmy Carter (na altura presidente dos Estados Unidos da América) que me parece atual, pois muitos de nós tendemos a adorar a autoindulgência e o consumo. A identidade humana, hoje em dia, não é definida por aquilo que se faz, mas pelo que se tem. Mas espero que descubramos que ter coisas e consumir coisas não irá satisfazer nosso desejo de significado. Espero que aprendamos que a acumulação de bens materiais não irá preencher o vazio de uma vida, que não tem confiança ou propósito… pense nisso.

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Rui Pereira

Membro da Direção da Associação Cultural e Artística Elucid’Arte
Nascido em Setúbal, Licenciado em Arquitetura pela Universidade Moderna de Setúbal, Licenciado em Engenharia Civil pela Escola Superior de Tecnologia do Barreiro – IPS, inscrito nas respetivas Ordens Profissionais e Doutorando em Arquitetura, especialidade de Teoria e Prática do Projeto, na Faculdade de Arquitectura – ULisboa. Domínios de atividade profissional: Gestão de projetos e obras, Auditoria e Fiscalização, Consultor e Formador. Membro da Direção da Associação Cultural e Artística Elucid’Arte desde 2008.

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