Ao receber a missiva que me avisa do prazo para escrever este pequeno texto reparo que o meu nome é precedido da abreviatura de doutor, o famoso “dr.”.

Coincidência, ou não, no mesmo dia leio uma notícia no jornal Público com o seguinte cabeçalho: “Alguns dos novos funcionários das escolas podem ser tratados por doutor”. Nunca sei o que pensar nestes casos, ou alguns funcionários das escolas serão pessoas doutas em ciências ou letras (como expectável numa escola) ou alguns funcionários serão pessoas ignorantes e pretensiosas (pois este é um dos significados da palavra “doutor” segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Afinal a noticia apenas frisava que nos concursos para seleccionar os novos assistentes operacionais alguns licenciados concorreram a estes, que decepção de noticia…

Mas voltando atrás, quando colocaram o “dr.” a preceder o meu nome que quereriam dizer?

Não me entendam mal, eu gosto de títulos profissionais, serve para distinguir a função de cada um, por exemplo, se tiver um jardim e precisar que alguém para dele cuidar é bom falar com a jardineira Ana, mas se tiver um casaco para remendar vou falar com o costureiro Jorge. E neste caso adequa-se melhor o título de cronista do que o de doutor… Mas o “dr.” não é (na grande parte das vezes) utilizado como título profissional, é um título… especial.
Acho que todos já temos um título especial, é o prenome, ou se quiserem, o nome próprio. Vamos imaginar por um momento que este era o título a utilizar pelos licenciados ou “por respeito”? Iriamos ter conversas como: “O Tiago vai hoje realizar a cirurgia ao teu pai”, “A Verónica vai ser juíza no caso do fogo posto” (nestes casos evitei o título profissional pela redundância). Muito mais agradável e atencioso. Um título “especial” parece apenas absurdo.

Já está na altura de terminar com a adoração do “dr.” a anteceder o nome. Nos diversos estabelecimentos de ensino superior pode ensinar-se (e aprender-se) muitas matérias, com maior ou menor complexidade, mas no final os formados nesses estabelecimentos são apenas pessoas normais que fazem um trabalho (se tiverem sorte) e esse poderia ser o seu título profissional, pois raramente esse é o seu título académico.

Mas os “doutores” não são mais do que pessoas normais, mas são pessoas normais que buscam o poder social, e é esta a verdade por detrás deste título “especial”.

Na sociedade, as pessoas que almejam o poder social tentam controlar como nos devemos dirigir a elas e como elas se dirigem a nós. Por exemplo, quando andei no primeiro ciclo do ensino básico (à cerca de 5 anos) a professora chamava-se Sra. Silva e ela chamava-nos pelo nosso primeiro nome. Isto é um pouco degradante (felizmente hoje já não é assim). Interagir com estas pessoas que buscam o poder social funciona da mesma maneira. Elas insistem em chamar-lhe pelo seu primeiro nome enquanto você é “forçado” a chamá-los pelo seu título “especial”. Mas eu já não estou no ensino básico e não posso concordar com esta degradante interacção.

Juntem-se a mim, os não-doutores do mundo! Juntem-se a mim nesta revolução para acabar com este sistema estúpido, elitista e ilógico de títulos “especiais”. Somos todos iguais e devemos todos ser tratados como iguais. Excepto os reparadores de máquinas de lavar loiça. Esses são superiores. Pois uma vez, estava em casa, já quase sem loiça lavada, porque a minha maquina de lavar loiça tinha-se avariado, cheguei mesmo a pensar desfazer-me de todos os tachos, panelas, loiças, talheres e demais utensílios de cozinha sujos… mas liguei para um reparador de máquinas de lavar loiça, que nesse mesmo dia veio à minha casa, reparou a máquina e salvou a situação… Bem a esse senhor vou chamar-lhe qualquer titulo que ele queira. Felizmente, e graças a ele, ainda possuo todos (ou quase todos) os meus utensílios de cozinha.

Fotografia de Rowan Gillette- Fussell

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Rui Pereira

Membro da Direção da Associação Cultural e Artística Elucid’Arte
Nascido em Setúbal, Licenciado em Arquitetura pela Universidade Moderna de Setúbal, Licenciado em Engenharia Civil pela Escola Superior de Tecnologia do Barreiro – IPS, inscrito nas respetivas Ordens Profissionais e Doutorando em Arquitetura, especialidade de Teoria e Prática do Projeto, na Faculdade de Arquitectura – ULisboa. Domínios de atividade profissional: Gestão de projetos e obras, Auditoria e Fiscalização, Consultor e Formador. Membro da Direção da Associação Cultural e Artística Elucid’Arte desde 2008.

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