2 casos, 1 ministério…


Caso #1: João Grancho demitiu-se do cargo de Secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário na sequência de uma notícia que o acusava de plágio praticado pelo próprio em 2007, quando presidia à Associação Nacional de Professores. De acordo com o próprio, a decisão de João Grancho foi “estritamente do foro pessoal, determinada por imperativos de consciência e de sentido de serviço público”.


Caso #2: o ministério da Educação sofreu uma das maiores crises na colocação de professores para este ano lectivo – foram diversos os erros cometidos pelo ministério em diferentes situações e momentos e esta acumulação de erros só poderia culminar numa demissão do responsável desta pasta ministerial – Nuno Crato. No entanto, ele ficou. Ele pediu desculpas por este episódio em plena Assembleia da República – mas quando pedia desculpas, Nuno Crato evidenciava mais as suas qualidades pessoais do que desculpar-se pelo sucedido…


2 casos, 1 questão…


Este ministério tem uma importância simbólica especialmente quando falamos de juventude. O trabalho em Juventude cruza muitas áreas de intervenção política mas aquela que tem um maior impacto na vida dos jovens é a Educação, dado ser nas instituições de educação formal que os jovens passam a maior parte do seu tempo…


O projecto ideológico de Nuno Crato para a Educação assentava na ideia de responsabilidade e de consequências – “Não sabes? Chumbas!” – os exames são uma evidência clara das competências e tem de haver uma valorização do conhecimento e da técnica. Relativamente aos valores, há que evidenciar o mérito como guia da intervenção pedagógica. A ideia de mérito diz que o sucesso é possível – a nossa posição e ascensão na sociedade depende da vontade e do trabalho da pessoa. É possível porque o trabalho e o esforço definem a justiça social nas sociedades modernas. Tão bonito – quase que ouvimos os violinos a tocar…


Da mesma forma que somos bem sucedidos também falhamos – por nossa culpa. A consequência é o erro, o chumbo… o falhanço. Por nossa culpa porque não estudámos, não nos esforçamos ou não trabalhámos.


Se pensarmos assim, há uma responsabilidade e há consequências. Por uma situação que manchava a sua honra intelectual, João Grancho decidiu demitir-se. Ora Nuno Crato, enquanto responsável máximo pelo ministério da Educação e da Ciência, não assumiu as consequências dos erros na colocação de professores. Ficou no seu posto como um aluno passa de ano só tendo negativas!


O mérito é contrário ao nacional porreirismo – Nuno Crato ficou mas devia demitir-se, à luz das suas ideias meritocratas e à semelhança do exemplo de João Grancho. Em rigor, Nuno Crato é demeritocrata – “não sei…” ou “a culpa não é minha…” são slogan de muitas pessoas que vivem seguras nos cargos e que não dependem do seu mérito. Desculpas não se dão, evitam-se… mas… na cova do lobo, não há ateus. E por isso mesmo, Nuno Crato pôs de lado as suas convicções e ficou sentadinho no seu lugar de ministro.


A questão fica: que exemplo dá Nuno Crato, enquanto ministro de Educação, para os jovens que são utentes de um sistema de ensino que advoga ideologicamente o rigor, a responsabilidade e as consequências?


2 casos sem resposta…

Fotografia de capa por MCTIGovBr

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Nuno Carvalho

Formador profissional
Nuno Carvalho é formador profissional e tem desenvolvido um trabalho na área da Educação Não Formal associada às Tecnologias de Informação e Comunicação. Foi um dos fundadores da Rato - Associação para a Divulgação Cultural e Científica, que tem desenvolvido um trabalho no domínio da inclusão literacia digitais.

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