“Ironicamente”, lembraram-se de me convidar para escrever uma crónica! E digo “ironicamente”, porque sendo eu uma pessoa ligada à dança, habituei-me a ter como expressão o movimento e como instrumento de trabalho o corpo, de repente, vejo-me a passar para o papel (ou a tentar fazê-lo) o que habitualmente descrevo com o movimento.

Assim, começo este meu primeiro desafio a escrever sobre Dança, até porque estamos numa época do ano em que se comemora o dia mundial da Dança (29 de Abril).

A dança faz parte de mim desde que me lembro de existir, onde comecei por brincadeira, onde mais tarde me formei, dancei, viajei… fiz e faço dela a minha carreira, atualmente ligada ao ensino e à coreografia, sempre num registo formal e profissional. Esta é uma forma de expressão única e universal, somos criados, nascemos, vivemos e morremos em movimento, é inato ao Homem.

Neste sentido, também sou espetadora, e com alguma curiosidade, observo esta nova “onda” que se tem vindo a desenvolver nos últimos anos através dos media, relativamente à expansão e divulgação da Dança no nosso país, que tem o seu lado bom mas também outro, não tão bom assim. O lado bom é que finalmente se fala e se vê Dança em todo o lado, já se começa a encarar o Bailarino não só como um artista, mas também como um profissional. O lado menos bom é que se cai no erro de colocar tudo no mesmo “saco” e nem sempre se distingue o trabalho amador do profissional, por sua vez criam-se expetativas erradas: a de que todos podem ser Bailarinos.

Para se ser Bailarino profissional é necessário talento e sobretudo muito anos de um trabalho árduo, é fundamental estudar, compreender o nosso corpo e por sua vez compreender o corpo de quem connosco dança, aprender várias técnicas usando-as como um meio para atingir um fim, é preciso experienciar através de um trabalho rigoroso e profissional com vários coreógrafos adquirindo assim, uma linguagem diversificada, dever-se-á ser criativo, ativo e pró-ativo. Como se tudo isso não bastasse, é importante também viajar, ler, cantar, escrever… cada vez mais as palavras de ordem do Bailarino são a diversidade e a versatilidade, onde a persistência se torna uma peça fundamental do “jogo”.

Ser Bailarino, não é somente aparecer durante uns tempos, ter algum “êxito” aparente e rapidamente desaparecer sem fazer da profissão a sua vida, uma carreira, o seu sustento, a sua forma de estar. Não basta um show off que garantam os famosos “cinco minutos de fama” e depois… nada se passou, nada ficou.

Fotografia de capa por Nuno Duarte

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Iolanda Rodrigues

Coreógrafa
Formou-se em 1996 na Academia de dança Contemporânea de Setúbal (ADCS), com Maria Bessa e António Rodrigues, entre outros. Em 2013 obteve o grau de Mestre em Ensino de Dança pela ESD – IPL. Desde 95 que trabalhou como Bailarina nas companhias: CeDeCe, CPBC, HNK-Ballet Nacional da Croácia (Bailarina convidada) Ballet Gulbenkian, Companhia Instável – Rui Horta e Quorum Ballet. Em 98 iniciou o seu percurso de docente em Modern Dance, Contemporâneo e Composição coreográfica, atualmente na ADCS e na ESD-IPL. Como coreógrafa, desde 96 que tem criado para diversas companhias de Dança e Teatro. Atualmente é membro da direção pedagógica da ADCS, direção artística da Pequena companhia/Little company da ADCS e Presidente da Associação ADC.

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