Quando, por ocasião dos festejos da Quinta-Feira de Ascensão, na Atalaia, em maio, o meu amigo senhor José Ratinho, Presidente da Direção do Círio dos Olhos de Água, em conversa particular, me confidenciou, apreensivo, que três dos dirigentes do Círio já andavam pelos oitenta anos, refleti sobre o assunto e acabei por partilhar da sua preocupação.

Este fenómeno não é exclusivo do Círio dos Olhos de Água, mas também dos outros Círios e das associações sem carácter religioso, de um modo geral.

Creio ser um assunto que, apesar da sua atualidade e cada vez maior importância, ainda se encontra relativamente pouco tratado e que, por isto mesmo, sobre o qual irei deixar, para reflexão alheia, algumas notas despretensiosas, nas linhas que se seguem.

Do meu ponto de vista, não se pode abordar de forma minimamente séria o problema sem procurar entender o que eram, que objetivos prosseguiam e como funcionavam as associações no passado e comparar com o que se passa no presente.

Em tempos pretéritos, as associações desempenhavam um papel fundamental na vida social das populações locais, especialmente nos meios mais isolados, com abundante colaboração voluntária dos sócios e uma gestão rudimentar, assente mais na boa vontade do que no saber e nos projetos.

Entretanto, sucessivamente, o aparecimento da rádio, da televisão e da Internet levaram a uma alteração cada vez mais visível e profunda dos hábitos sociais.

Por razões económicas, sociais e outras, após o jantar os indivíduos e os seus familiares passaram a frequentar cada vez menos as coletividades e a ficar cada vez mais tempo em casa.

A gestão das associações complexificou-se e passou a repousar, por períodos mais longos, nas mesmas pessoas, por não haver outras disponíveis.

O progressivo envelhecimento demográfico que afeta praticamente toda a Europa Ocidental veio reduzir ainda mais o leque de opções disponíveis, em termos de recrutamento de quadros de dirigentes associativos.

Em geral, as pessoas têm cada vez menos tempo e vontade de trabalhar gratuitamente em prol de outrem, muitas vezes com prejuízo das vidas familiares respetivas.

O real funcionamento e as cada vez maiores dificuldades (humanas, financeiras e outras) com que se debatem a maior parte das associações escapam, em boa medida, ao grande público.

Quando, por exemplo, pela Festa Grande, um romeiro vai a um dos bailes do Círio dos Olhos de Água, cuja entrada é gratuita, passa a tarde e/ou a noite a dançar e leva de casa uma garrafa de água para não a ter de comprar no Bar do próprio Círio constitui um exemplo acabado do que afirmei. Na prática – e, na vida, é esta que realmente conta – ele não se dignou contribuir com um cêntimo para ajudar a cobrir as despesas com a contratação dos músicos e outras.

Perante este panorama, cada vez mais complexo e difícil, o que é que ainda se poderá fazer para procurar melhorar a situação?

Para começar, não me parece que existam respostas indiscutíveis, que possam ser aplicadas em qualquer coletividade e em qualquer situação.

Terá de se ver o meio social no qual a associação se insere, e, assim, da eventuais possibilidades de ela alargar e aprofundar a sua área de atuação. Num meio rural, escassamente povoado e pobre, elas serão, por natureza, necessariamente mais limitadas.

Há que procurar alargar a base de associados – procurando, por um lado, tentar fazer regressar alguns dos que tenham saído, e, por outro, cativar os mais jovens. Deste modo, alargar-se-iam as fontes de receita e a base de recrutamento de futuros dirigentes.

Também as atividades desenvolvidas pelas associações devem, na medida do possível, ir de encontro aos desejos de alguma juventude e serem devidamente publicitadas.

No nosso tempo, será fundamental a criação de páginas das associações nas redes sociais, depois mantidas com esmero e devidamente atualizadas.

E, para terminar, não nos esqueçamos que muitos dirigentes políticos de âmbito local, regional e, até, nacional, começaram por ser dirigentes associativos. Tratou-se de uma primeira e importante escola. Mereceu a pena.

Fotografia de MDGovpics

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Mário Balseiro Dias

Professor
Mário João Balseiro Dias nasceu em Vale Porrim, próximo de Atalaia, no concelho de Montijo, em 28 de dezembro de 1958. Atualmente, reside em Setúbal. Licenciou-se em Ciências Jurídico-Políticas na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. É Mestre em História Regional e Local pela Faculdade de Letras da mesma universidade, com a classificação máxima, atribuída por unanimidade: Muito Bom. Profissionalmente, exerce a docência na Escola Secundária c/ 3.o Ciclo Poeta Joaquim Serra, em Montijo.

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