No quadro do calendário litúrgico da Igreja Católica, a festa da Ascensão, celebrada numa quinta-feira quarenta dias após a Páscoa, comemora a ascensão de Jesus Cristo ao Céu.

Em Portugal, o dia também é conhecido por “Quinta-Feira da Espiga”, ou, muito simplesmente, por “Dia da Espiga”.

Manda a tradição que, num passeio pelo campo, se colham espigas de vários cereais, flores campestres e raminhos de oliveira, para formar um ramo (“espiga”), que deverá ser colocado por detrás da porta de entrada da casa, até ser substituído por outro, no ano seguinte, a fim de dar sorte na vida aos residentes.

Ora, de entre os vários festejos anuais a Nossa Senhora da Atalaia, cumpre destacar, por se tratar dos menos conhecidos e estudados, precisamente o da Quinta-Feira da Ascensão.

Ao longo da segunda metade do século XX, passou-se de uma situação em que a maioria dos participantes nos festejos era oriunda do meio rural, e, assim, dispunha de mais tempo livre, para uma situação em que a maior parte deles trabalha por conta de outrem, e, deste modo, só pode aparecer na Atalaia no fim da tarde do dia em causa.

Até 1971, a Quinta-Feira da Ascensão foi comemorada na Atalaia unicamente por iniciativa da Igreja, com uma missa e uma pequena procissão.

Neste ano, o Círio Novo, por iniciativa do seu Presidente, José António Quendera Miranda (1926-2012) (uma das figuras centrais da romaria de Nossa Senhora da Atalaia nas últimas quatro décadas do século), passou a comemorá-la, com uma festa, na qual constavam “comes-e-bebes” e baile.

Depois, a iniciativa foi, sucessivamente, seguida pelos Círios da Carregueira (1974), dos Olhos de Água (1976) e, mais recentemente, da Azóia (2000). Atualmente, dos Círios que possuem casas para acomodação dos romeiros na Atalaia, apenas o da Quinta do Anjo continua a manter as portas fechadas.

Por ordem de antiguidade de instituição, deixo, a seguir, as particularidades dos festejos de cada um dos quatro Círios, que tenho vindo a observar, ao longo das décadas.

Círio da Azóia (Da freguesia de Nossa Senhora da Consolação do Castelo, concelho de Sesimbra. Já existente em 1607 e cujo motivo de fundação se ignora) – É o único Círio que começa as festividades logo de manhã. Nos termos de um acordo entre o Círio e a Câmara Municipal de Sesimbra, cerca de meia centena de reformados do concelho vai almoçar à casa do Círio, o mesmo fazendo o Presidente da autarquia. Cada um dos convivas leva farnel, para ir comendo durante o dia. O Círio disponibiliza, gratuitamente, carapaus e sardinhas, para assar, e, ao fim da tarde, igualmente caldo verde. Música para dançar ao longo de todo o dia.

Círio da Carregueira (Da freguesia de Pinhal Novo, concelho de Palmela. Fundado em 1833, na sequência de uma promessa realizada quando uma epidemia de cólera morbo assolou Portugal) – Festejos idênticos aos do Círio Novo, descritos abaixo, mas com duas diferenças. Não existe o hábito de concentrar neste dia o pagamento de quotas anuais e, ao fim da tarde, o Círio coloca à disposição dos presentes carnes variadas para assar.

Círio dos Olhos de Água (Da freguesia de Pinhal Novo, concelho de Palmela. Fundado em 1854, na sequência de uma promessa realizada quando uma epidemia de febre amarela assolou Portugal) – Parte da Direção almoça na casa do Círio. À tarde, dirige-se para os Olhos de Água, de onde traz, em cortejo automóvel, as principais bandeiras e as duas imagens da Senhora da Atalaia – é o único Círio que realiza este cortejo e é também o único que, pelas dezoito horas, se integra na procissão organizada pela Igreja. As bifanas e a “sopa caramela” vendidas na casa do Círio substituíram a carne e os couratos que outrora eram colocados à disposição de quem os quisesse assar. Por fim, também baile.

Círio Novo (Fundado em 1945, na sequência de uma cisão no Círio da Carregueira) – No primeiro andar da sede, almoço para diretores, sócios e amigos do Círio. Os sócios pagam as quotas anuais. Ao fim da tarde, servem-se febras, bucho e “sopa caramela” aos convivas. O dia festivo termina com baile realizado na sala do rés-do-chão.

The following two tabs change content below.

Mário Balseiro Dias

Professor
Mário João Balseiro Dias nasceu em Vale Porrim, próximo de Atalaia, no concelho de Montijo, em 28 de dezembro de 1958. Atualmente, reside em Setúbal. Licenciou-se em Ciências Jurídico-Políticas na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. É Mestre em História Regional e Local pela Faculdade de Letras da mesma universidade, com a classificação máxima, atribuída por unanimidade: Muito Bom. Profissionalmente, exerce a docência na Escola Secundária c/ 3.o Ciclo Poeta Joaquim Serra, em Montijo.

Últimos textos de Mário Balseiro Dias (ver todos)