No passado dia 23 de maio, em S. Salvador, do país da América Latina El Salvador, foi beatificado o bispo D. Óscar Romero, um mártir por amor “incómodo”, um dos maiores profetas do século XX. Para além de presidentes chefes de governos de vários países, de uma trintena de bispos e de outras individualidades, estiveram em grande número aqueles que foram a razão fundamental dos seus últimos anos de cristão e de bispo: o povo. Eram mais de 300 mil pessoas.
D. Óscar Romero foi assassinado há 35 anos, pela brutalidade da ditadura militar quando celebrava o ato mais sublime da vivência espiritual do cristão católico que é a Eucaristia. Os seus algozes escolheram aquela circunstância ou foi apenas por saberem que ele estaria naquele lugar só os próprios o saberão. O que eles não tiveram consciência é de que não havia ocasião melhor para imolar a vida em favor dos mais débeis da terra.
Ele tomou como sua a causa dos pobres, dos camponeses e injustiçados em nome do Evangelho e da opção preferencial pelos mais pobres. Os chamados “esquadrões da morte”, entre 1979 e 1981, terão sido responsáveis pela morte de trinta mil pessoas. Foi por todos esses e pelos que iam morrendo, aos poucos, porque lhes roubavam condições de vida digna e a liberdade de as reclamar, que ele não se importou de colocar em risco a sua honra e a sua vida. É que antes de o balearem de morte, foram assinando o seu bom nome, atribuindo justificações para o que ele dizia e fazia que eram caluniosas. Até a própria Igreja levou bastante tempo a reconhecer os seus atributos extraordinários como ser humano e crente, porque alguns, com responsabilidades eclesiais nesta tarefa, chegaram a questionar se o seu agir e a sua palavra tinham motivações de fé ou de política partidária, mais concretamente de ideologia marxista. Infelizmente libelos deste tipo ainda continuam hoje a ser lançados sobre muitos cristãos que, procuram viver conforme o Evangelho, assumindo compromissos idênticos aos que martirizaram Óscar Romero.
Vivia modesta e humildemente. Sentia uma vontade enorme de estar no meio do povo, com total convicção que chegou a dizer: “ O povo é o meu profeta e, com um povo como este, não é difícil ser bom pastor.”
Colocou-se do lado dos pobres e dizia que a Igreja deveria fazer o mesmo. Por isso, foi um político, neste sentido, pois entendeu a luta dos mais pobres que tentavam proteger-se da violência social e real e estabelecer para si uma sociedade mais justa, livre de impunidade social e de repressão política. Como tudo seria diferente se cada cidadão, e por razões óbvias os cristãos, se assumissem como políticos, entendendo este termo como “defensores da polis”, ou seja, da cidade terrestre.
A morte de D. Romero foi muito festejada entre os militares e os membros da classe patronal de El Salvador que tinham ordenado o seu assassínio.
Na sua última homilia ele disse: “Queridos irmãos e irmãs, olhemos todos com esperança para essa “coisas”, neste momento histórico… Façamos tudo aquilo que pudermos… pois todos esses desejos de justiça, paz e bem-estar que sentimos na terra se realizam para nós se os nós se os iluminarmos com a esperança cristã…”
Como é oportuna esta mensagem para nós portugueses, tendo em conta as exigências que nos têm sido colocadas e os desafios tão grandes que não estamos dispensados de enfrentar nos próximos anos.
Como cristão, agradeço a Deus pelo dom da vida e testemunho do bispo Óscar Romero e que ele seja um testemunho, uma luz e um exemplo corajoso a seguir. Estou a léguas de distância de ser como ele foi, mas é isso que procuro viver, não esquecendo a dimensão social da minha fé.

Fotografia de Franco Folini

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Eugénio Fonseca

Presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal e da Cáritas Portuguesa
Nasceu em Setúbal, onde ainda reside, no seio de uma família católica e de origem humilde, cujo rendimento vinha do trabalho na pesca e na indústria conserveira. Com os irmãos fez um percurso de crescimento consciente das dificuldades dos seus pais e do enorme esforço para que os estudos estivessem sempre em primeiro lugar. Assim prosseguiu os seus estudos tendo completado a licenciatura em Ciências Religiosas pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. No âmbito social e eclesial tem assumido, desde a juventude, várias responsabilidades com destaque para a presidência da direção da Cáritas Diocesana de Setúbal, cargo que exerce desde 1987 e a presidência da Cáritas Portuguesa, desde 1999. O seu trabalho e empenho na luta pela justiça social, tem sido reconhecida de várias formas pela sociedade civil, religiosa e política. Em 10 de Junho de 2007 foi agraciado por S. Ex.cia o Senhor Presidente da República com a Ordem de Mérito de Grande Oficial. Em 2014 tomou posse como vogal do Conselho das Ordens de Mérito Civil. É também professor do ensino secundário.

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