Na sessão de encerramento das últimas jornadas da JSD, Maria Luís Albuquerque [MLA], a atual ministra de Estado e das Finanças, atirou a seguinte frase: “Independentemente dos benefícios e dos estímulos e do interesse que temos em estimular isso, vocês que são jovens, multipliquem-se”.

Parece-se que os jovens sociais democratas aplaudiram espontaneamente…

Quando lemos a frase e pensamos na realidade que o país, temos alguma dificuldade em entender conta de multiplicar. Porém é fácil descontextualizar frases e criar “soundbytes” que são mastigados incessantemente nas redes sociais e na opinião pública anónima – citando a notícia do Expresso, MLA disse também: “há pessoas que gostariam de ter mais filhos e não podem objetivamente porque não têm condições […] a verdade é que havendo condições razoáveis eles criam-se e compensa”.

A questão da natalidade para a direita portuguesa tem dois pilares fundamentais: em primeiro lugar, os filhos concretizam as funções morais, sociais e políticas de uma família tradicional portuguesa – os valores conservadores construiram na nossa cabeça uma ideia de família – casal heterossexual, casado pela Igreja, com filhos (pelo menos dois…), o homem é o chefe de família e a mulher toma conta dos filhos e da casa. O segundo pilar tem cariz económico – a sustentabilidade do sistema económico e dos sistemas de proteção social dependem das pessoas que estão ativas no mercado de trabalho.

As palavras de MLA já foram alvo de muitos comentários – eu gostaria de abordar esta questão por um outro ângulo. Há uma reflexão a ser feita sobre o que são “condições razoáveis” para ter um filho… no meu grupo de amigos pertencente à minha geração, eu sou dos poucos que não tem filhos. As circunstâncias da vida levaram-me a ter uma vida que me afastou dessa possibilidade. Porém, tive que aturar os filhos dos outros – cada um tem que merece.

Ser pai, mãe (ou ambos…) no século XXI implica um conjunto de competências que só se compreende quando se passa por esta experiência – ao escrever estas linhas, sinto que não tenho legitimidade para falar sobre este tópico. O que sei é que ter um filho é uma responsabilidade séria que não pode ser tomada de uma forma leviana. Uma responsabilidade que não pode ser tratada como se fosse um mero exercício de matemática.

Não implica só dinheiro… implica também tempo, maturidade, responsabilidade e sobretudo… amor. Repito: não percebo muito do assunto mas ter um filho é um ato de amor altruísta – as dúvidas terão de ser muitas. Se ter um filho pode ser algo maravilhoso também pode ser uma tragédia.

A natalidade não pode ser abordada como uma questão económica – quando, por exemplo, as questões da produtividade laboral em Portugal passam por aumentar o horário laboral e diminuir a segurança no trabalho, não podemos esperar que os jovens se “multipliquem” sem pensar numa parentalidade de qualidade para os filhos e para eles mesmos. Mais do que haver mais filhos, é preciso que hajam bons pais.

A matemática nunca foi o meu forte… porém sei que quando um dos fatores da multiplicação é 0, o resultado é… é aquilo que todos sabemos.

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Nuno Carvalho

Formador profissional
Nuno Carvalho é formador profissional e tem desenvolvido um trabalho na área da Educação Não Formal associada às Tecnologias de Informação e Comunicação. Foi um dos fundadores da Rato - Associação para a Divulgação Cultural e Científica, que tem desenvolvido um trabalho no domínio da inclusão literacia digitais.

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