Na minha última crónica abordei o tema da memória. Depois de uma breve caracterização fiquei de me debruçar, agora, sobre como a exercitar.

Como lhes disse, com a aproximação das provas finais, é repetidamente pedido aos médicos ou na farmácia, uma indicação ou uma receita para um estimulante milagroso, para rapidamente melhorar a capacidade de fixação da matéria em estudo, pelos alunos.

Na presente data muito se tem investigado na área da memorização. Não no desenvolvimento de novos fármacos, embora havendo novas moléculas farmacológicas a serem estudadas, estas são tidas mais como doping cerebral, mas existe ideia generalizada entre os neurocientistas que há técnicas e condutas que podem melhorar a capacidade de fixação. E por vezes é possível estimular a mente com técnicas (?) simples.

Há investigadores que defendem a tese, por exemplo, que mastigar pastilha elástica ajuda a concentrar, porque concluíram que os gestos repetitivos ajudam o cérebro a não se “distrair”, facilitando assim a retenção de nova informação. Outros, verificaram que nos intervalos dos tempos escolares, se os alunos praticassem exercício físico, durante breves minutos, melhoravam o aproveitamento nos exames que exigiam memorização. Caso concreto constatado numa universidade Norte Americana foi que o aproveitamento escolar melhorava nos alunos que não registavam apontamentos enquanto o professor falava, estando atentos e que, só no final das aulas, faziam um esforço para escrever o que se recordavam de ter ouvido. E, já que falamos em escrever, também está demonstrado que o registo manuscrito em vez da escrita direta no computador, ajuda o cérebro a consolidar mais eficazmente os novos conhecimentos.

Está perfeitamente assente que o descanso, leia-se dormir, é fundamental para a memória. As chamadas “diretas” nas vésperas dos exames estão contra indicadas. Não há retenção dos conhecimentos para além da perturbação da linha do raciocínio. Qualquer aluno do ensino superior sabe que uma das técnicas de memorização é a criação das chamadas mnemónicas que são tanto mais eficazes quando feitas pelo próprio do que as elaboradas por terceiros, já que usam associações de situações ou emoções vividas por quem as cria.

Mesmo sem querermos estar a pôr em prática novidades que vão aparecendo em publicações científicas, ainda é possível recorrermos a técnicas simples. Está provado cientificamente que o exercício físico é um ótimo estimulante cerebral por aumentar a irrigação sanguínea e, consequentemente a memória. Já o excesso incontrolado de atividades, pelo cansaço provocado pode ser origem de falhas de memória.

Em medicina há uma regra que diz: a função faz o órgão. Por outras palavras, músculo que não é exercitado, atrofia-se. O cérebro para manter a sua função de memória também precisa de exercício.

Por isso, tente, pelo menos uma vez por semana tomar duche com os olhos fechados. Só com o taco localizar as torneiras, pegar no sabonete, no champô. Utilize a mão não dominante. Coma, escreva, abra a pasta. Leia em voz alta. Troque os percursos diários, para ir para o trabalho ou para casa. Fale com pessoas de diferentes idades, trabalhos e ideologias. Em casa troque a localização de algumas coisas. Sabe onde está tudo, o cérebro tem o mapa feito. Inicie uma nova atividade. Fotografia, culinária, um novo idioma.

Com sorte, nunca mais voltará a perguntar, ao sair de casa: Onde deixei as chaves de casa?

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Luís Cabrita

Médico Pediatra

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