No âmbito da vida cultural da nossa região, o Círio dos Marítimos de Alcochete assume um relevo ancestral e particular, o qual ainda não terá sido devidamente reconhecido em toda a sua plenitude.


Tratei do assunto no meu quarto livro (“Círio dos Marítimos de Alcochete”, Alcochete, Câmara Municipal, 2002, 158 pp.).


Na Baixa Idade Média, nalgumas povoações do litoral português, foram surgindo várias confrarias ou irmandades de mareantes, com objetivos assistenciais e devocionais.


A primitiva Confraria de Mareantes da vila de Alcochete já aparece documentada nas “visitações” da Ordem de Sant’Iago da Espada às comendas de Alcochete e de Aldeia Galega do Ribatejo, realizadas no ano de 1512. No início do século XX, um Círio de homens casados e outro de solteiros fundiram-se num único.


No passado um marítimo, agora, com o fim desta atividade profissional, um seu descendente, organiza as festividades, anualmente, de sábado a terça-feira de Páscoa, para os seus filhos homens e solteiros, a começar pelo mais velho.


Observando os festejos de 2015, constata-se que o “chininá” continua a ser formado por Américo Gonçalves, tocador de gaita-de-foles e por José Ratinho, tocador de tambor (atualmente, desempenha o cargo de Presidente do Círio dos Olhos de Água). Quanto aos burros que desfilam nos cortejos, alguns foram cedidos pela Câmara Municipal de Alcochete e outros tiveram de ser alugados. As quatro vacas mirandesas que puxam as duas carretas continuam a vir de Alcobaça.


Mas, este ano, houve novidades, a começar pelos lugares de instalação do próprio Círio. Em Alcochete, o pavilhão gimnodesportivo da Câmara Municipal de Alcochete substituiu o armazém do Hotel Al-Foz dos anos anteriores, enquanto, na Atalaia, a casa do Círio da Quinta do Anjo, localizada a norte da igreja, substituiu a do Círio dos Olhos de Água, mais espaçosa e moderna mas de arrendamento mais dispendioso.


Em 2015, coube a José Pedro Santos Dias organizar os festejos, desempenhando o cargo de “festeiro” o seu filho, Pedro Daniel Marques Dias. Nos cortejos, desfilaram dezoito mulheres casadas e apenas sete solteiras em cima dos burros.


O Círio continua a utilizar nos cortejos a imagem de roca de Nossa Senhora da Atalaia do próprio santuário.


Em 2014, o número de bandeiras já ascendera a 159. O número anual de bandeiras novas oferecidas em resultado de promessas mostra a continuação da vitalidade do Círio: por exemplo, no ano de 2007, tinham sido doze.


Em 2015, o guião foi arrematado por 360 “contos”, a primeira bandeira por 110 e a segunda pelo mesmo valor. Note-se que parte das bandeiras são arrematadas, conjuntamente, por mais de uma pessoa. Depois, durante o ano, elas ficam uns tantos meses na cada de cada arrematante.


Nos quatro dias de festejos, o número de pessoas a tomar refeições nas casas do Círio já ultrapassa o milhar. Parte-se do princípio de que o Círio não pode negar comer a ninguém. Resultado: há por lá quem ande a comer e nada tenha a ver com o Círio. Um ponto, inevitavelmente, a rever no futuro.

Fotografia de capa por Tuválkin

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Mário Balseiro Dias

Professor
Mário João Balseiro Dias nasceu em Vale Porrim, próximo de Atalaia, no concelho de Montijo, em 28 de dezembro de 1958. Atualmente, reside em Setúbal. Licenciou-se em Ciências Jurídico-Políticas na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. É Mestre em História Regional e Local pela Faculdade de Letras da mesma universidade, com a classificação máxima, atribuída por unanimidade: Muito Bom. Profissionalmente, exerce a docência na Escola Secundária c/ 3.o Ciclo Poeta Joaquim Serra, em Montijo.

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