Desde a entrada de Portugal na antiga CEE (actual UE) que Dezembro é o mês em que outros – leia-se mesmo os que não tem frota de pesca como a Alemanha, por exemplo – decidem aquilo que podemos pescar nas nossas águas. Convém não esquecer, que temos a maior zona económica exclusiva de todos os países da união.


Contudo, desde o tratado de Lisboa e da célebre frase “Porreiro pá!”, que esta situação de perda de autonomia é ainda mais gritante, pois o mar passou a ser competência exclusiva da União (e não do estado-membro).


Foi por isso que numa madrugada de Dezembro passado, a ministra Assunção Cristas gritou aos 7 ventos que tinha conseguido um acordo histórico, o melhor de sempre, adjectivando assim o acréscimo em 18% das possibilidades de pesca para 2015, face a 2014.


Independentemente de alguns ligeiros acréscimos de quota serem uma mais valia para o sector (tamboril, lagostim), existiram outras onde existiram cortes (pescada, bacalhau). A verdade é que este acréscimo das possibilidades de pesca decorre quase em exclusivo do aumento em 67% da quota do carapau.


Esta foi a verdadeira vitória de Pirro, só saudada pelos representantes da pesca de arrasto, mas que deixou indiferente todos os representantes da pesca artesanal, largamente maioritária em Portugal.


Apenas para esclarecer e desmistificar esta façanha do governo português, convém lembrar que a quota de carapau, para Portugal em 2014, foi de 25 mil toneladas, que ficaram longe de ser capturadas. Some-se a isso o facto, conhecido de todos os que estão no meio, mas ignorado pelos governantes, que os preços de comercialização do carapau chegam a ser tão baixos que as embarcações de pesca mesmo que o encontrem, em determinados momentos, evitam pescá-lo. São vários os períodos do ano em que o preço de comercialização do carapau em lota não chega aos 10 cêntimos, ou pior, não existam compradores interessados em comprar o peixe.


Infelizmente os ecos da comunicação social nacional foram do grande feito deste governo na negociação das quotas, no entanto e tal como penso ficar claro neste meu texto a verdade navega em águas bem mais turvas. Basta abordarmos qualquer armador ou pescador da nossa região para perceber a importância desta conquista da ministra Assunção. Mais uma vez fomos para a Europa armarmo-nos em carapau de corrida.


Nota: Este texto não obedece ao novo acordo ortográfico por opção do autor.


Fotografia de capa por Amaral Carina

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Carlos Macedo

Administrador-delegado da ArtesanalPesca e Armador de Pesca
Nasceu em Sesimbra a 11 de Junho de 1977, é licenciado em Engenharia Química com especialização no ramo de Ambiente e Qualidade - pelo Instituto Superior de Engenharia de Lisboa. Exerce, actualmente, as funções de administrador-delegado numa organização de produtores de pesca em Sesimbra (ArtesanalPesca) desde 2005. Desde o ano de 2009, tornou-se também armador, sendo co-proprietário de uma embarcação de pesca artesanal.

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