Certo dia, uma criança de tenra idade abeirou-se de mim, perguntando se a polícia o iria buscar, caso ele não comesse a sopa.

Respondi-lhe que a polícia não vai buscar os meninos pelo facto de estes não comerem a sopa, mas disse-lhe de seguida que os meninos que comem a sopa, crescem de uma forma mais saudável, ficando mais fortes e cheios de energia. Finalizei dizendo-lhe que a escolha seria dele e que deveria conversar com os seus pais, acerca disso.

Depois das despedidas e dos apertos de mãos que os miúdos agora gostam de fazer, ele pareceu ficar pensativo e eu pensativo fiquei.

Na realidade, poucos de nós, enquanto crianças, temos a coragem de abordar os nossos receios.
Diria mesmo, enquanto adultos.

De entre outras leituras, gostaria de ressalvar que o que aquele menino fez, foi algo que está reservado apenas às pessoas que se importam com o seu percurso, com uma procura de consciência e saber das consequências das suas acções.

Quantos de nós não temeram o bicho papão ou o velho do saco, quando crianças?

A princípio custa a entender o quadro da vida, onde deve permanecer o autocontrolo e a plena consciência de que o caminho se faz caminhando. Uns conseguem naturalmente ultrapassar dúvidas e dificuldades, enquanto outros se tentam escapar por sucessivos mecanismos internos de fuga.

Constatamos isso em pessoas que brincam com coisas sérias, incapazes de dar verdadeira consistência e dimensão aos momentos chave desta nossa breve existência.

A cidadania existente num país traduz a qualidade dos seus cidadãos.

Por cidadania podemos sucintamente entender o exercício dos direitos e deveres cívicos, políticos e sociais estabelecidos na nossa Lei mãe, a Constituição da República Portuguesa.

Entender este conceito significa colocar em prática condutas individuais e colectivas que tenham presentes as noções básicas de que direitos e deveres estão interligados, que o respeito e cumprimento de ambos contribuem para uma sociedade mais equilibrada.

Podemos então dizer que o exercício da cidadania se compõe de uma consciência apurada dos direitos e obrigações de cada cidadão, o qual deve esforçar-se para que sejam colocados em prática.

Para exercer a cidadania temos então de nos ver no pleno gozo das disposições constitucionais.

Preparar o cidadão para o exercício da cidadania deve ser um dos objectivos fundamentais da educação, em qualquer país.

Se analisarmos os índices de abstenção ao voto, nestas eleições legislativas, constatamos a existência de índices elevadíssimos de cidadãos desistentes, desinteressados, desiludidos. Cidadãos que deixam de exercer quer o seu direito, quer o seu dever. O direito e o dever de Votar.

Esta realidade é algo que contrasta com aquilo que aconteceu no decorrer da legislatura que agora termina. Todos assistimos a uma onda generalizada de crítica e de afronta para as mais diversas decisões do governo. Uma onda que envolveu praticamente todos os quadrantes da sociedade, enfermeiros, médicos, professores, polícias, funcionários dos tribunais, funcionários públicos em geral, empresários, entre tantos outros…

Fica a dúvida intrigante relativamente à forma de conciliar estes dois importantes sectores, que marcam a realidade portuguesa.

Por um lado a existência de uma plataforma de luta afincada por tentar não perder direitos e conseguir melhores condições de vida pessoal / profissional. Por outro lado a verificação de uma vontade de não votar, quer seja por desesperança, descrença, desinformação, alegada desconsideração, ou até possível raiva ou ainda ódio por quem possa exercer a actividade política governativa, por se entender, eventualmente, que esse exercício não tem correspondido às mais básicas expectativas dos cidadãos.

Se, por um lado, a primeira plataforma procura promover mudanças, transformações, reformas, melhorias, actividades e intervenção, a segunda promove desistências ao não apontar caminhos, não esclarecendo pontos de vista, não participando nem se autodeterminando.

No apelo à Democracia que se deve fazer, deve ter-se em conta a existência de um espaço onde devem caber quase todas as condutas, desde que legais. Todavia, não desistamos de construir. Vamos todos comer a sopa, ficar mais fortes e saudáveis. Entre cada prato de sopa, uma história. Não de encantar, mas de instruir.

Vamos rapidamente perceber do esforço de manipulação de uns e da organização de outros, vamos derrubar as barreiras mentais, socialmente patológicas, a que muitos de nós se submetem. O velho do saco não existe. E se porventura existir, mais vale olhá-lo nos olhos e mostrar-lhe a nossa razão e se necessário a nossa força.

Enquanto uns, por desilusão ou desorganização desistem, outros vão vencendo beneficiando da organização e da ilusão que conseguem promover.

Para nós ASPP/PSP, compostos de activos habituados a uma luta de princípios, continuaremos a tentar marcar presença nos lugares onde futuro se decide.

Consideramos que jamais será tempo de desistir. Somos pelo confronto positivo de ideais, pela instrução e implementação de medidas inovadoras naquilo que conduza à construção de um futuro profissional mais adequado para os polícias, frente a frente, olhos nos olhos, sem medo, perante o destino e quem dele fizer parte.

Não há bicho papão que nos meta no saco.

The following two tabs change content below.

António Loura

Presidente da Direção Distrital de Setúbal da ASPP-PSP

Últimos textos de António Loura (ver todos)