A História faz-se de histórias. E os guerreiros e os Homens ilustres de Portugal fizeram-se e fazem-se nas narrativas escolares de cada época.


Em jeito de aparte: quando uso a palavra homens estou naturalmente a referir-me aos homens e às mulheres (embora em outra época se pensasse só no masculino). Esta herança linguística que faz prevalecer o masculino sobre os dois géneros tem preguiçosamente resistido à evolução, ainda que lenta, da mentalidade latina, e é assumida pelos seus falantes, em especial pelos lusos, com a conivência ou conformismo das suas falantes. Em Espanha a atitude no feminino é de outra assertividade e determinação…


No pós 25 de abril de 74, grafava-se sempre homens no sentido de humanidade com maiúscula. Depois foi-se perdendo esse hábito na escrita. Ultimamente, eu própria recuperei a palavra grafada com maiúscula por indicação académica, com intenção de manter o princípio democraticamente adquirido e merecido (a questão é: será que por se destacar assim a palavra Homens, ela continua a encerrar a mesma a ideia biforme de género de outrora?).


Desde há algum tempo que os oradores mais mediáticos e prodemocráticos optam por se dirigirem aos cidadãos em público, convocando a sua atenção pelo uso das duas palavras patriotas distintas de género e, pelo menos aparentemente com gentileza cavalheiresca, nomeando os indivíduos do género feminino primeiro: portuguesas e portugueses.


Todos sabemos que os guerreiros de hoje já não são só homens, mesmo no conflito armado (lamentáveis são os conflitos, mas não necessariamente a participação das mulheres neles…ou pelo contrário…?). Felizmente há outros guerreiros sem armas, que são os precursores da paz, homens e mulheres, que procuram no seu dia a dia ferramentas para o entendimento e progresso pela aprendizagem mútua e no respeito pela vontade individual.


O modelo de escola atual, pensado e repensado nos últimos anos, revela um sucesso escolar de ainda insucesso do sistema. E não há dúvida que a tecnologia está a mudar a forma como os alunos estudam e os professores ensinam. Mas a escola virtual do futuro que tem vindo a ser profetizada nunca poderá resumir-se à internet, no isolamento de quatro paredes. O conhecimento está aquém e além-tecnologia, seguramente com a ajuda desta. É que a falência da educação humanista não consta do cardápio social ou das metas de proficiência…


Ou será que é cada vez mais difícil hoje ver para além do progresso tecnológico?


Nos tempos que correm… mares nunca dantes navegados para descobrir é quase impossível. As terras viciosas atuais não são as dos incivilizados e estes querem a liberdade e a religião muito à sua maneira… Mais barões… só se forem os do dinheiro e do tráfico. Os heróis antigos perderam o respeitinho. Os reis e os presidentes estão a braços com a austeridade e dizem que não têm cofres cheios de obras valorosas. A fé e o império diminuíram drasticamente, a não ser o império do consumismo e do autoritarismo. A lei da Morte tem tido dificuldade em manter vivos no quotidiano das gentes os feitos verdadeiramente grandiosos da humanidade, a avaliar pelo espólio cultural e ético em risco como os vestígios arqueológicos, a lealdade e por aí fora….


Pode ser que o programa internacional de avaliação dos alunos (PISA) deste ano nos dê algum alento com indicadores animadores. Pode ser que encontrem um panorama com assinaláveis razões que, esgrimidas pelas “armas” da educação em luta pelos nossos sempre ilustres discentes, sejam inspiradoras para o crescente fértil projeto humano, qual espírito empreendedor concertado que se almeja.


Porque afinal… onde andamos nós, grandioso herói lusíada cantado no século XVI? Houve alguma parte da narrativa que tivéssemos deixado de perceber na nossa epopeia?


Assim de repente… não me parece que tenha sido aquela do poeta quando se oferece para cantar e espalhar por toda a parte as façanhas épicas, porque agora temos as redes sociais e outros afins para nos engrandecermos…


Ou será antes a do engenho e da arte para as boas façanhas (cada vez menos épicas) que exigem uma tuba canora e belicosa e um espírito valoroso nacional proglobalizado?

Fotografia de capa por Fiore S. Barbato

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Rosa Duarte

Professora e mestre em estudos portugueses
Rosa Maria da Silva Candeias Tavares Duarte nasceu em Alcântara. É investigadora do CHAM e professora de Português. É mestre em Estudos Portugueses e desde 2010 doutoranda na FCSH em Línguas, Literaturas e Culturas, na área de Estudos Literários Comparados. Fundou dois jornais escolares. É conhecida no meio fadista como Rosa Maria Duarte. Tem dois cd's editados: “Fado Que Cura” e “Fado Firmado”. O seu blogue pessoal é “A Batuta do Olhar”. É casada e tem dois filhos.

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