No mês em que completo três anos de colaboração ininterrupta com o “Setúbal na Rede”, escolho, para breve tratamento nesta crónica, um tema, de certo modo, também para mim, inesperado.

Em deslocação recente à Biblioteca Nacional, quando me encontrava a documentar sobre obras publicadas sobre o culto mariano em Portugal nas últimas décadas, deparei, inesperadamente, com uma relação escrita por um espanhol sobre o terramoto de 1 de novembro de 1755 em Setúbal e que se encontra guardada no Arquivo Secreto do Vaticano, em Roma. Publicou-a Arnaldo Pinto Cardoso, sob o título de “O Terrível Terramoto da Cidade que foi Lisboa. Correspondência do Núncio Filippo Acciaiuoli (Arquivos Secretos do Vaticano)” (Lisboa, Aletheia, 2005). A parte que nos interessa vem nas páginas 133-134 e, porque tem passado mais ou menos despercebida no meio cultural setubalense, reproduzo-a, na íntegra, a seguir.

“A cidade de Setúbal, uma das mais prósperas do Reino, habitada por cerca de três mil famílias, e que era uma das que mais rendiam ao erário régio, calculando só a taxa dos enchidos em quarenta mil ducados anuais, esta mísera cidade ficou totalmente arruinada pelas águas do mar; a prova disso é tal que depois da inundação, depois de o mar se ter retirado, foram encontradas algumas embarcações atravessadas pelas estradas, do que se deduziu que tendo passado as ondas do mar por cima dos altos muros, torres e casas, depois ao retirar-se, deixou entre as ruínas as ditas embarcações. Por três vezes, o mar assaltou a dita cidade, e ao mesmo tempo foram vistas, por duas vezes, sair chamas de fogo dentro do próprio mar, e na praça da cidade viram-se três grandes bocas abertas na terra.

O colégio dos padres jesuítas ficou totalmente arruinado, e de trinta pessoas que se encontravam dentro, somente uma pode com dificuldade escapar com vida. As monjas de vários mosteiros, de São João e de Jesus, puderam escapar [a]o perigo e retiraram-se para os montes fora da cidade, onde por alguns dias sofreram as maiores misérias que se possam crer, até que a Providência (as levou) ao santuário dito do Bonfim. Na igreja do convento de São João, no momento em que o padre prior cantava a missa solene, no momento exato da elevação da sagrada hóstia, caiu a igreja toda, restando o Prior morto sob as ruínas com cerca de outras oitocentas pessoas que assistiam à Santa Missa.

Nesta terra dita de Setúbal perderam-se mais de mil famílias, das três mil que faziam a sua população. Neste tempo, viram-se coisas admiráveis e tão verdadeiras que foram autenticadas por notários públicos. Na dita terra de Setúbal, na estrada chamada dos Caldeireiros, das ruínas de uma casa foi tirada uma menina de um ano de idade, filha de um artista de tendas (?), a qual era nos braços de uma mulher, e ambas foram encontradas sem lesão alguma. Outra mulher foi encontrada depois de três dias sob as ruínas próximo da casa do Correio, a qual foi encontrada viva abraçada ao seu consorte defunto. Na mesma altura, foi tirado fora outro rapazinho de cinco anos, o qual ao ver-se livre pediu pão para matar a fome, e tendo-lhe sido dado um fruto castanho, o rapaz pôs-se a correr saltando de alegria.”

Convirá, agora, comparar o (importante) conteúdo deste testemunho contemporâneo com as informações contidas nas Memórias Paroquiais de 1758 (Rogério Peres Claro, “Setúbal no Século XVIII. As Informações Paroquiais de 1758”, Setúbal, [s. n.], 1957, 65 pp.).

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Mário Balseiro Dias

Professor
Mário João Balseiro Dias nasceu em Vale Porrim, próximo de Atalaia, no concelho de Montijo, em 28 de dezembro de 1958. Atualmente, reside em Setúbal. Licenciou-se em Ciências Jurídico-Políticas na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. É Mestre em História Regional e Local pela Faculdade de Letras da mesma universidade, com a classificação máxima, atribuída por unanimidade: Muito Bom. Profissionalmente, exerce a docência na Escola Secundária c/ 3.o Ciclo Poeta Joaquim Serra, em Montijo.

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