Muito se tem dito e escrito acerca do recurso valioso e escasso que é a água, inclusive eu, sendo certo que não existem quaisquer dúvidas quanto à sua importância enquanto recurso natural e económico.
Neste momento, em que diversas zonas do globo atravessam períodos de seca, como o Brasil ou o estado da Califórnia, nos EUA, não esquecendo o continente Africano, em Portugal continuamos a ter mais de um terço da água distribuída não faturada, ou seja, apesar de ser captada, tratada, transportada, armazenada e distribuída, não chega a ser vendida aos utilizadores, implicando perdas de 160 milhões de euros por ano.
Nesta altura, em que a dívida das autarquias à Águas de Portugal, apesar de ter diminuído ligeiramente por obrigatoriedade legislativa, ronda os 468 milhões de euros, existem ainda perdas na rede e consumos autorizados não faturados como a água para lavagem de ruas, rega de espaços verdes, alimentação de fontes e fontanários, lavagem de condutas e coletores de esgotos e combate a incêndios.
A rega é um meio de satisfazer as necessidades em água das plantas quando esta não existe no solo. Na manutenção de espaços verdes de uma zona urbana, um dos custos associados é o consumo de água, através da rega. Assim, a rega é um fator de produção, principalmente num momento em que se fala em seca meteorológica, pois desde dezembro de 2014 que está a chover menos do que o habitual, segundo o IPMA.
Uma gestão sustentada da água passa pela utilização desta apenas quando é estritamente necessário. Nesta linha de raciocínio, para regar espaços verdes seria vantajoso monitorizar parâmetros simples como o estado de humidade do solo, consumos desde a última rega, previsão meteorológica, tendência em relação à evapotranspiração e os gastos médios dos últimos dias. Porém, verifica-se que nada disto é considerado, nem mesmo o estado do tempo. Constata-se que o desperdício de água para consumo humano é contínuo, água tratada para regar a meio do dia, para regar enquanto chove, regar a calçada e o asfalto… Nem sequer a devida manutenção dos sistemas é realizado.
As autarquias, algumas com graves problemas financeiros (também no distrito de Setúbal), continuam a dar-se ao luxo de desperdiçar água quando, apenas através da previsão meteorológica poderiam reduzir o consumo em rega. Bastava um bocadinho mais de empenho e atenção.
O desleixo gera desperdício e gastos desnecessários de recursos e de dinheiro. Diminuindo os consumos, reduz-se a fatura que, em última análise, somos todos que a pagamos.
O estado da Califórnia já adotou medidas de redução até 25% do consumo urbano de água que irão ser aplicadas a particulares, comerciantes e governantes, com caráter obrigatório. As sanções a aplicar a incumprimentos serão um facto.
Será que só por via da obrigatoriedade se poderão alterar os comportamentos despesistas?

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Olga Paredes

Engenheira Química, Ambiente e Qualidade
Licenciada em Engenharia Química - Ambiente e Qualidade. Pós-graduação em Gestão de Laboratórios. Mestrado em Análises Químicas Ambientais. Profissionalmente, desempenho funções de coordenadora de departamento de laboratórios. Assumi, durante 2013, o cargo de vereadora do pelouro da sustentabilidade ambiental, a tempo inteiro, na Câmara Municipal do Barreiro. Formadora na área do ambiente, qualidade e química.

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