Como gostaria de vos poder falar hoje do período que vivi, Atlântico distante, muito longe do Promontorium Sacrum, lá num país onde, ao que se sabe, os Romanos não chegaram: a Angola que me viu nascer e que nunca esquecerei.

Mas, ainda assim, também lá chegam os ecos dessa Civilização do Ius, atravessando todos os Mares, através da Língua Portuguesa e do Direito Romano que ainda hoje influencia e melhor jurisprudência do Mundo.

Tanto gostaria de vos falar de passeios dados, entre montanhas e florestas, que por ainda ali parece que não acolhem bem as gentes, não vá a tentação humana acabar por as estragar.

Mas não, infelizmente o trabalho tolheu-me, porque as férias são parcas num país em crise, ou são cada vez mais só para alguns.

Saber-me-ia tão bem relembrar esse caminho que, atravessando calmamente o Sado e descendo a costa alentejana devagar, cruzando sítios de mil memórias, dirigir-me ao Ponto onde a mitologia nacional diz ter nascido a Escola de Sagres, que nos permitiu alcançar o local que me viu nascer e tantos outros mais.

Recordar os corvos, esses corvos que acompanhando o Santo, de Vicente seu nome, vieram do Promontório Sagrado até Lisboa e que, séculos mais tarde, nas caravelas, farão também companhia aos navegadores.

Não será ainda hoje que dele voltarei a falar, pois numa muito breve incursão ao Algarve, apenas tive ocasião de revisitar, em Ossonoba, a actual, Faro, o mosaico do Deus Oceano.

O mosaico esse que poderia quase sintetizar todos os mitos que se elaboram sobre o desconhecido, o mundo sobre o qual cai a nossa curiosidade, mas que não podemos, por um motivo qualquer, conhecer.

Esse Mundo que navegantes de todos os tempos foram impelidos a desvendar.

O geógrafo Estrabão, no século I a. C., e Avieno, no século IV d.C., descrevem-nos pormenorizadamente a área compreendida entre o Estreito de Gibraltar e o Cabo de S. Vicente, esse lugar mágico onde o corpo do Santo que lhe conferiu o nome terá dado à costa. O Santo faz, portanto uma viagem mítica de Oriente, de Valência, para Ocidente, tendo aí ficado, ao que diz a lenda, enterrado na zona do Promontório por séculos, até que nos alvores da nacionalidade é trazido para Lisboa.

O livro III da Geografia de Estrabão é o que mais exaustivamente se prende à descrição da Hispânia, iniciando-se praticamente com a descrição do Cabo Sacro. O geógrafo grego refere-o, tal com se verifica no texto citado por Avieno, como o ponto mais ocidental da Ibéria: «Este é o ponto mais ocidental não só da Europa, mas também de toda a oikouméne» (Estr. III, 1, 4).

Estrabão informa-nos ainda da localização dos principais centros urbanos da Turdetânia: “Os indígenas, conhecedores da natureza da região, e sabendo que os esteiros podem servir para o mesmo que os rios [refere-se às trocas comerciais] construíram as suas cidades e povoados nas suas margens, como o fazem nas ribeiras dos rios. Assim foram fundadas Asta, Nabrissa, Onoba, Ossonoba, Mainoba e outras mais” (Estr. III, 2, 5).

Referida em diversos autores da Antiguidade Clássica durante muito tempo se associou a cidade romana de Ossonoba às Ruínas da grande casa agrícola ou villa de Milreu.

Mesmo Estácio da Veiga, o grande arqueólogo algarvio, quando escavou Milreu, em 1877, julgou que se tratava da Ossonoba, referida pelos escritores da Antiguidade, o mesmo sucedendo com muitos outros investigadores de várias épocas, até meados do século XX, não podendo deixar de referir Garcia de Resende que partilhava dessa mesma ideia.

Só nos anos 50 do século XIX, Abel Viana se dá conta que realmente se tratava de um equívoco.

Mas já outros investigadores haviam defendido a localização de Ossonoba em Faro, designadamente José Leite de Vasconcelos, sendo apenas, como acima dissemos, a partir de meados do século XX que se esclarece definitivamente a questão com as escavações efectuadas por Abel Viana e Lyster Franco, quando é colocado a descoberto um podium de um templo localizado no fórum, que foi parcialmente escavado sob a actual Sé-Catedral.

Sabe-se hoje que a cidade romana de Ossonoba, que teve também ocupação anterior, foi uma das importantes cidades do sul da Lusitânia, tendo com o Imperador Augusto e sua grande reforma administrativa uma grande expansão.

As relações de proximidade com a vizinha Província da Bética contribuíram para que Ossonoba e o seu território tenham um grande desenvolvimento nos séculos III e IV, designadamente em torno da exploração de preparados piscícolas e do comércio marítimo, até que, no século IV, tal como acontece noutras cidades da Hispânia, sofre uma retração.

A propósito do Mosaico do Oceano, já várias vezes estudado e publicado, há várias teorias, designadamente sobre o tipo de edifício onde se localizaria e os ofertantes desta obra que nele são nomeados. Mas a esta temática não me prenderei, tanto mais que existe uma boa síntese da autoria de Luís Fraga da Silva que lhe é dedicada, publicada num blogue cuja leitura recomendo. Julgo tratar-se de um trabalho fundamental para o melhor conhecimento do Algarve e seu Património, destacando, no caso específico, uma entrada que se refere especificamente ao mesmo.

http://imprompto.blogspot.pt/2011/11/o-mosaico-do-oceano-de-ossonoba-faro.html

Inclino-me a aceitar a teoria defendida por esse investigador e outros mais que admite que o edifício do mosaico pudesse ser onde se sediava o poder provincial de Ossonoba.

Descoberto em 1926 entre as Ruas Infante D. Henrique Ventura Coelho, Faro, foi novamente reenterrado, só voltando a ser redescoberto em 1976, no decurso de obras de construção, e foi datado de finais do século II ou inícios do III d.C, embora dúvidas subsistam também sobre a sua cronologia, havendo quem defenda que possa ser de período mais tardia, mesmo o século IV d.C.

Sem me demorar nesse tema, pois, como acima referi já tem sido deveras equacionado, queria hoje apenas deixar uma lembrança sobre o tema iconográfico do Oceano, cuja conotação não pode permitir associações marítimas inequívocas para o local onde estaria pois, ao contrário do que a designação possa parecer, o Mar Oceano é, na mitologia grega, um grande rio que envolvia o Mundo. Ao que dizem as lendas o Oceano era concebido, portanto, como um rio-serpente, que cercava e envolvia a terra. Já para os Sumérios a Terra estava sentada sobre o oceano, também um rio-serpente. Na mitologia grega como o refere Ésquilo (525 a.C. – 456 a.C.) na sua obra “Prometeu Agrilhoado”, o Rio-Oceano é a personificação da água que rodeia o mundo: correndo em torno da esfera achatada da terra, como diz Ésquilo cujo curso, sem jamais dormir, gira ao redor da Terra imensa.

À medida que os conhecimentos geográficos se tornaram mais precisos, por Oceano passou a denominar-se o Oceano Atlântico, ou seja limite ocidental do mundo antigo.

O Oceano simboliza o poder masculino, assim como Tétis, sua irmã e esposa, representa o poder e a fecundidade feminina do mar. É o pai de todos os rios, que segundo a Teogonia, são mais de três mil, bem como das quarenta e uma Oceânidas, que personificam os riachos, as fontes as nascentes, motivo pelo que é vulgar que mosaicos com este tema mitológico apareçam associados a ambientes aquáticos ou mesmo termais.

À cabeça de Oceano estão associados os Ventos (Euro e Bóreas), ou seja as Forças da Natureza, e graças à enorme descendência das divindades decorrem para a Mitologia as linhas de água.

Aproveito para desejar que, neste Agosto quente, cuja designação recorda o imperador Augusto e o que nos deixou como herança, a que nos prendemos aqui há exactamente um ano, não nos falte a água primordial, já que a crise nos traz mais arredados do Atlântico, neste território sul do Ocidente que foi a antiga Lusitânia.

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Maria Filomena Barata

Liga de Amigos de Miróbriga e Investigadora do CIDEHUS.UE - Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora
Técnica superior da DGPC (Direcção Geral Património Cultural); colaboradora da Liga de Amigos de Miróbriga; Investigadora do CIDEHUS.UE - Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora. Autora de vários artigos e estudos no âmbito do Património Cultural.
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