Hoje em dia não é fácil escrever sem carregar nos condimentos adjetivais. Ou argumentar sem colecionar estufas de adjetivos. Ou ser promovido sem uma conduta proadjetival. E sem consumir doses diárias não recomendadas de adjetivos numerais.


Os sentidos subentendidos são também muitos apreciados, qual estratégia para ajudar a baralhar e a não pensar. A clareza das frases está moribunda (como aquela d’“a qualidade da educação determinar a moral do cidadão e da sua nação”; esta já quase que era…).


Tudo muda a todo o instante. O bom aluno de hoje é o mau aluno de amanhã, ou vice-versa. E ninguém chega a saber o porquê, claramente. As ideias sinceras ficam para depois. Talvez no último suspiro ou, quem sabe, num banquinho de réus…


Porque o coração tem as suas razões e a razão continua a desconhecê-las. Vivem-se tempos estrategas de austeridade cada vez menos comunitária.


É o sopro ao ouvido para criar expectativas… São, no mínimo, apregoadas e estranhas pedagogias: “Portugal seria um bom aluno, se conseguisse boa nota”. Temos pena!


Assim se dá como aberta a caça engenhosamente malabarista ao trabalhador honrado. Autênticas perseguições do tipo auto-de-fé com rituais duplos de adulações e prepotência maniqueísta.


E a culpa mais à mão aponta geralmente os mass media. Que tem levado tudo a perder. Que precisa de levar por tabela à conta das corrosivas técnicas do marketing, das campanhas eleitoralistas, das paixões desportivas, dos interesses economicistas, dos comentadores quase políticos…e então programas?… chega de Grandes Irmãos…


Ao fim e ao cabo, um país à mercê do produto humano poderoso que espelha uma vontade em rede e escolhas em cada perfil marcelista (convenhamos que nem todas as escolhas boas precisam de ser más).


As audiências revelam-se fracas quotas no convívio português. Com alguma sorte, há um auditório diferenciado com preocupações de alinhamento diário na família, curtos tempos de antena disponíveis e algum fôlego para a recarga do indivíduo por si.


No meio de tanta informação e conversa, mesmo para quem não percebe nada de psicologia, vai apanhando a diferença entre repressão, bajulação e descontentamento.


Vá lá que hoje em dia os conflitos são mais progressistas. Que na sociedade das nações as batalhas hodiernas são mais diversificadas e extremistas. Ora dizimam populações com chaimites. Ora sugam a identidade e a liberdade com discursos gaseificados, ludibriadamente visionários e compassivos.


A arma vital ou letal, como queiramos, da comunicação consegue ainda mais façanhas bélicas, com tipos de munição verbal de última geração. Em cada investida, disparam uma miríade de interpretações e conjurações.


Então, o que nos vale são os mais afoitos, que são ou vai ou racha: desembainham exércitos de verbos para lutar contra os discursos enfeitados de companheirismo, e procuram incansavelmente desviar o alvo a abater que, inteligentemente, é tão somente a histórica humanidade. Será que há algum deus que nos valha?


Ainda temos a medicina… Que em qualquer consulta médica, perante tal diagnóstico, o conselho parece ser uma campanha de higienização discursiva e ética. No mínimo, uma remoção aturada das cáries mais antigas e, nos casos graves, a desinfestação e desbaratização dos dizeres inflacionados ou conspirativos.


Para baratezas, já nos bastam os espíritos descontinuados. Como os materialistas desgovernados Sanchos Panças.

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Rosa Duarte

Professora e mestre em estudos portugueses
Rosa Maria da Silva Candeias Tavares Duarte nasceu em Alcântara. É investigadora do CHAM e professora de Português. É mestre em Estudos Portugueses e desde 2010 doutoranda na FCSH em Línguas, Literaturas e Culturas, na área de Estudos Literários Comparados. Fundou dois jornais escolares. É conhecida no meio fadista como Rosa Maria Duarte. Tem dois cd's editados: “Fado Que Cura” e “Fado Firmado”. O seu blogue pessoal é “A Batuta do Olhar”. É casada e tem dois filhos.

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