Durante o exercício da prática clínica que exerço é comum verificar que muitas pessoas, sobretudo mulheres, negligenciam a sua vontade própria em virtude daquilo que consideram ser a felicidade dos filhos.

Esquecem-se de si, chegando ao ponto de não lutarem pelo que lhes faz feliz. Temem a mudança e vivem presas a um receio que as consome e as impede de agir. Percebem claramente que não estão bem ao ponto de sentirem todos os dias uma falta disponibilidade para estar com os filhos. Exatamente por terem consciência disso, são por norma pessoas que se sentem angustiadas e frustradas por não conseguir agir de outra forma.

Em algumas situações existem motivos identificados internamente que justificam a falha que os pais estabelecem na relação com os filhos. Noutros casos, a causa de tal desconforto pode não estar conscientemente identificada o que não quer dizer que a pessoa não perceba através das atitudes que toma que não está bem.

Refletir sobre o assunto pode implicar o confronto com uma realidade para a qual ainda não se está preparado. No entanto, reportando-me às palavras sábias de Jung, “não há nada que tenha influência psíquica mais forte no ambiente circundante, especialmente sobre os filhos, do que a vida não vivida dos pais. Quando os pais descuidam a sua felicidade para procurar a felicidade dos filhos, deixam aos filhos uma herança má, uma má impressão do passado. Quem pensa muito na felicidade dos seus filhos comete dois erros gravíssimos: não sabe procurar a felicidade própria, e os filhos, paradoxalmente, não aprendem essa arte difícil. Se os pais souberem amar a si próprios aqui e agora, os filhos aprenderão a fazê-lo. Adiar a felicidade para o futuro dos filhos significa deixar alguma coisa que não tiveram a coragem de realizar para a sua própria vida.”

Nem sempre é fácil procurar essa felicidade. Verifica-se com frequência que as dificuldades na toma de decisões, faz com que a pessoa se sinta sem força, perdida e descrente em relação ao futuro.

Em primeiro lugar é preciso que se reconheça e aceite que não se está bem de forma a ganhar coragem para olhar para dentro e perceber o que está mal e que, necessariamente, importa que seja alterado. O processo é árduo e implica determinação.

Como o novo ano letivo prestes a iniciar-se é importante que os pais se preparem e percebam que o sucesso, o bem-estar e a estabilidade dos filhos, depende também deles.

Não é que seja a fórmula mas pode ajudar perceber que, às vezes “mudar de vida” implica “simplesmente” mudar de atitude.

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Ana Cardoso

Psicopedagoga na clínica da família (Setúbal); investigadora no Centro de Estudos de Doenças Crónicas (FCM-UNL).
Desde 1999 que trabalha na área da saúde mental. Exerceu funções clínicas no Hospital Miguel Bombarda até 2007. Desde essa altura que tem colaborado com o departamento de saúde mental da Faculdade de Ciências Médicas, participando em vários projectos de investigação científica (avaliação de necessidades, intervenções familiares, doenças neuropsiquiátricas, adesão ao tratamento). Mestrado em Saúde Mental pela FCM. Várias publicações científicas realizadas na área da saúde mental.

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