Os cuidados de saúde primários representam um papel fundamental na área da saúde mental e, para esse efeito, importa com que os profissionais de saúde estejam sensibilizados (e treinados) para a identificação, tratamento e diagnóstico de perturbações de foro psiquiátrico neste contexto.

Estudos recentes verificaram que 10% da população geral consultam o respetivo clínico geral devido a uma nova doença, e que uma em cada cinco dessas consultas pode ser atribuída à presença de uma perturbação mental. Todavia, menos de 50% das perturbações psiquiátricas são detetadas pelo clínico geral e só uma minoria dos doentes chega a ser vista por um especialista de saúde mental. Para além disso, determinou-se recentemente que as incapacidades geradas pela doença mental são tão graves, ou mais, do que as que derivam de estados físicos graves.

Nos cuidados de saúde primários existem áreas de intervenção nas quais não só é importante dar resposta às necessidades emocionais dos nossos doentes, como também utilizar o aconselhamento para facilitar a mudança de comportamentos e combater o estigma em relação às doenças mentais.

Contudo, as pessoas que obtêm tratamento de saúde mental a nível dos cuidados especializados é muito reduzida, o que aponta claramente para a importância de se desenvolverem estratégias para atuarem sobre as barreiras do comportamento dos doentes que procuram auxílio e dos profissionais que prestam cuidados. Por esse motivo, é de igual forma fundamental desenvolver acções dirigidas aos próprios clínicos de modo a sensibilizá-los cada vez mais para o impacto que as perturbações mentais têm na vida das pessoas.

Podemos então concluir que, a correcta identificação e tratamento das perturbações mentais tem um impacto, não só ao mitigar o sofrimento dos doentes, mas também ao reduzir o seu consumo dos recursos da saúde.

Para além disso, com o desenvolvimento de ações formativas, por exemplo, que possibilitem o treino de competências relacionais e comunicacionais, e que, ao mesmo tempo, actuem no combate ao estigma, a capacidade do médico para atingir um diagnóstico psiquiátrico correcto e realizar o tratamento (ou encaminhamento) adequado destas perturbações, poderá também ser melhorada.

Resumindo, para além de todo o trabalho que pode e deve ser feito junto dos doentes, também os profissionais de saúde representam um papel fundamental, que pode ser avaliado não somente através dos conhecimentos técnicos como também através da qualidade da relação terapêutica que conseguem (ou não) estabelecer com os doentes que assistem.

Fotografia de capa por martinhoward

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Ana Cardoso

Psicopedagoga na clínica da família (Setúbal); investigadora no Centro de Estudos de Doenças Crónicas (FCM-UNL).
Desde 1999 que trabalha na área da saúde mental. Exerceu funções clínicas no Hospital Miguel Bombarda até 2007. Desde essa altura que tem colaborado com o departamento de saúde mental da Faculdade de Ciências Médicas, participando em vários projectos de investigação científica (avaliação de necessidades, intervenções familiares, doenças neuropsiquiátricas, adesão ao tratamento). Mestrado em Saúde Mental pela FCM. Várias publicações científicas realizadas na área da saúde mental.

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