De acordo com os últimos dados disponíveis, verifica-se que o número de jovens em consultas de psiquiatria nos hospitais do SNS aumentou nos últimos anos. São vários os factores que podem estar associados a este aumento. A crise por exemplo, e todas as consequências associadas, representa um factor em relação ao qual, enquanto profissionais de saúde mental, não podemos ficar indiferentes.

   

No entanto, e apesar da realidade dos números apontar para esse aumento, as grandes as assimetrias em termos de resposta e a falta de camas para internamento são dificuldades detectadas pelo Relatório de Primavera do Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) no que respeita à Saúde Mental da Infância e Adolescência.

   
Para além da falta de camas, as lacunas em termos de recursos humanos é outra realidade bem identificada, uma vez que é crucial uma prestação de cuidados em termos multidisciplinares e adequados em função daquelas que são as características desta população. Considera-se, por isso, que uma prestação de cuidados a este nível deva de ser feita, obrigatoriamente, por clínicos da especialidade, nomeadamente pedopsiquiatras, integrados numa equipa composta, idealmente, por profissionais de saúde dotados de competências capazes de responder às necessidades destes jovens.

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A uma distância considerável ainda desta realidade, a verdade é que, muitos destes doentes, acabam por ser acompanhados em consultas externas, tendo os médicos que usar, por vezes, “doses de medicação mais elevadas com o objectivo de conter eventuais comportamentos desadequados de forma puramente química”.

   

Esta é uma realidade que se traduz num desgaste emocional também para as famílias. A sobrecarga é elevada e, também elas, precisam de apoio e orientação a vários níveis. A falta de recursos e respostas obriga a que muitas famílias sofram em silêncio.

   

Ainda assim, enquanto profissionais de saúde mental, cabe-nos dirigir esforços de forma a colmatar estas dificuldades e a promover a saúde mental dos jovens e seus familiares.Fotografia de capa por martinhoward

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Ana Cardoso

Psicopedagoga na clínica da família (Setúbal); investigadora no Centro de Estudos de Doenças Crónicas (FCM-UNL).
Desde 1999 que trabalha na área da saúde mental. Exerceu funções clínicas no Hospital Miguel Bombarda até 2007. Desde essa altura que tem colaborado com o departamento de saúde mental da Faculdade de Ciências Médicas, participando em vários projectos de investigação científica (avaliação de necessidades, intervenções familiares, doenças neuropsiquiátricas, adesão ao tratamento). Mestrado em Saúde Mental pela FCM. Várias publicações científicas realizadas na área da saúde mental.

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