Esta frase “a obra de arte sabe mais do que o artista” é, para mim, verdadeira. Que dá naturalmente que pensar. É de quem? (se é que as frases têm donos únicos circunscritos no tempo…) Quem foi a primeira pessoa que a pensou e a disse publicamente? (terá havido alguém na esfera privada que a dissesse primeiro?) Terá sido um perscrutador da génese do fenómeno artístico ou simplesmente um empírico popular?…

No processo comunicativo, a princípio todas as palavras estão disponíveis para todos, livres para serem de qualquer um, repetidas, ainda que com uma esperada moderação e responsabilização. Não são as palavras construídas por ideias e as ideias construtoras das palavras? Se as ideias fazem nascer palavras, habitualmente não se ficam por aí: servem-se destas para crescer, e quando as transbordam, dão origem a novas palavras, a novas sensações e a uma série de polissemias… Os próprios sons procriam palavras…

O ato de pensar e o ato de falar são direitos universais consagrados e constituem inegável património imaterial da humanidade. Contudo, sabemos que nem sempre tem sido assim nas sociedades… Mas mesmo em contexto de liberdade de expressão, há palavras trabalhadas com direitos de autor. Ideias com direitos de autor. Contudo, os atos significativos, necessariamente de um autor individual ou coletivo, poucos são os que conhecem autoria, porque o mundo vai sendo construído e destruído por pequenos e por grandes feitos do Homem ao longo da sua existência, em gestos de instintiva e permanente sobrevivência.

Cabe à história preservar a identidade de um povo e dos seus indivíduos. Daí que a história procure conhecer e destacar autores, inventores, descobridores… Serão, de facto, os escolhidos os verdadeiros heróis da humanidade?

E como conta o historiador a história do ato criativo e da obra de arte?

De entre as múltiplas maneiras possíveis, a mais válida para mim é aquela que admite que a obra de arte está para além de quem a faz e do próprio estudioso dela. Uma perceção do mundo em que a inspiração é mais do que uma leitura reflexiva daquilo que se passa dentro e fora de um artista. Um ato criativo que é livre e que pode surpreender o seu autor.

Não é fácil falar de obras que superam a condição humana dos artistas. Mas os mesmos autores, com a autoridade devida, muitos se silenciam para dar espaço às suas obras e às interpretações que as recriam.

A discussão sobre a importância da autoria, que remonta ao Eu do Romantismo, não está encerrada. É legítimo questionar-se em cada feito ou projeto humano a autoria e o seu autor. E o Guinness World Records está longe de encerrar o assunto…

O self não se quer ofuscado pela globalização. Dá sinais que quer preservar o património individual, reafirmando-se a par da preservação do património coletivo. Os programas escolares estão aí que o não desmentem.

“Basta um homem para mudar o mundo” (Gandhi). E cada indivíduo tem que mostrar que cumpre as suas obrigações de interação.

Imagine-se uma sociedade com indivíduos obrigados a um consumo mínimo e a um máximo de palavras e de ideias! Que fosse decretado o uso generalizado de um aparelho do tipo palavrímetro. Quem falasse demais, perdia pontos consoante o abuso (como no sistema que se quer introduzir na carta de condução!). Quem não contribuísse com uma ideia inovadora num determinado prazo, perdia x pontos.

Quem tivesse a mesma ideia coincidentemente, só se a apresentasse verbalmente de forma suficientemente pessoal é que se safava.

Quem aproveitasse uma determinada ideia, ainda que alheia, para a desenvolver com inteligência, ganhava x pontos.

Por isso, quando se fala ou se escreve, (ainda) não se paga direitos de autor ou perde pontos no palavrímetro pelo uso quotidiano das ideias dos outros para suportar aquela que se transmite. Mas a consciência das influências sofridas é a única maneira de compreender a realidade e de evitar cada vez mais as ideias emprestadas e as mentalidades padronizadas.

Assim, tudo indica que só primando pela autonomia de pensamento e pela autossuficiência de atitude é que se avista séria escapatória para uma latitude de massa crítica, em tempos que ateimam de austeridade de valores morais, de alarido propagandístico e de marketing engenhoso.

Fotografia de Omar Le Fou

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Rosa Duarte

Professora e mestre em estudos portugueses
Rosa Maria da Silva Candeias Tavares Duarte nasceu em Alcântara. É investigadora do CHAM e professora de Português. É mestre em Estudos Portugueses e desde 2010 doutoranda na FCSH em Línguas, Literaturas e Culturas, na área de Estudos Literários Comparados. Fundou dois jornais escolares. É conhecida no meio fadista como Rosa Maria Duarte. Tem dois cd's editados: “Fado Que Cura” e “Fado Firmado”. O seu blogue pessoal é “A Batuta do Olhar”. É casada e tem dois filhos.

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