Ano novo, vida nova. É uma expressão em alta nesta mudança de calendário. O meu pai dizia-a muitas vezes. Há nela algo de obrigação moral com puerilidade, marcada pela economia vocabular típica e pelo sabor popular premonitório.

   

A morte do ano de 2014 não é exagerada. O estertor da sua morte aconteceu nas últimas horas do dia 31 de dez. Depois de vários sonidos, mais ou menos ruidosos, com glamour q.b. em várias partes do mundo, o seu óbito foi declarado às 00h00.

   
Sobreviventes, avançamos, esperançosos, a página para o novo ano, obedientes ao calendário romano. Esperançosos de que o tempo no calendário de hoje seja mais justo do que a conjuntura social e económica vigente. Continuamos com muito por fazer e repensar. E não há tempo para disparates. Mas se nos atrevêssemos a olhar a história do calendário juliano, nessa altura até os Pontífices alongavam ou encurtavam o ano conforme as suas simpatias com quem estava no poder. A desordem era tanta que chegava ao ponto de o começo do ano estar adiantado cerca de 3 meses em relação ao ciclo das estações.

   

Nós, legítimos filhos dos romanos, já nos livrámos desses desvarios decrépitos e contamos todos o tempo à confiança. Embora ainda com a velha esperança numa mudança a valer. As anteriores ainda não vingaram. É que a mão da corrupção continua a mover os seus dedinhos malandros pelos frisos farpados da cronologia desde o império romano. E está em força, a “dar cartas” no séc. XXI, no ano de 2014, e no outro ano anterior, e no outro antes desse…

   

A velha senhora Esperança pode desanimar, mas a sua morte é exagerada. Não a senhora do outro regime, que essa felizmente já cá não mora, foi “requalificada”, mas a outra anterior a essa e a muitas outras. Que é a dona Esperança, tão velha como a Humanidade.

   

Velha jovem no coração dos portugueses, que ainda vive em muitos projetos e oportunidades para quem não quer desistir de conquistar uma vida nova. Esperemos que com sangue novo, porque no ano de 2014 nasceram em Portugal metade dos bebés dos que nasceram em 1979. Os números dos últimos anos mostram que Portugal é também o país onde as mulheres são mães, pela primeira vez na história, cada vez mais tarde. Em 2013, a idade média da mãe na altura do nascimento do primeiro filho era de 29,7 anos.

   

As escolas abandonadas e sem alunos são a morte de todas as senhoras. As sociedades sem famílias são, queremos acreditar, notícia exagerada. Pois os jovens continuam a lutar lá fora para constituir família cá dentro…os que ainda podem e querem regressar…

   

Aguardemos que haja, desta vez, algumas verdadeiras mudanças que a outra velha sempre nova senhora há tanto tempo tem aguardado. Há mais de cem anos. Já Eça de Queirós se fazia anunciar distinto da ordem circunspecta de então, soltando os primeiros vagidos inspirados de indignação. Para alguns espíritos críticos, ainda educados na ordem bafienta e melancólica, a morte da velha mentalidade pareceu-lhes exagerada. Uns raros lúcidos morreram de ataques apopléticos quando compreenderam o visionarismo dos queirosianos quanto à gravosa cristalização das velhas práticas nos novos tempos. O Eça, ele próprio, chegou ao ano de 1900 e fartou-se.

   

Mas mesmo assim, convenhamos que a morte da velha senhora, a familiar Dona Esperança, é exagerada. Não há desgraça que a resseque de exaustão. A nossa história também é velha e vive sustentada pelas saudades no espírito empreendedor dos marinheiros imortalizados na cultura de um fado maior. E este é intrínseco ao nosso respirar.

   

Somos, portanto e com orgulho, descendentes duma fé coletiva digna de um Padre António Vieira, o protetor Paiaçu, inesquecível português nas longínquas terras do ancião lundum.

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Rosa Duarte

Professora e mestre em estudos portugueses
Rosa Maria da Silva Candeias Tavares Duarte nasceu em Alcântara. É investigadora do CHAM e professora de Português. É mestre em Estudos Portugueses e desde 2010 doutoranda na FCSH em Línguas, Literaturas e Culturas, na área de Estudos Literários Comparados. Fundou dois jornais escolares. É conhecida no meio fadista como Rosa Maria Duarte. Tem dois cd's editados: “Fado Que Cura” e “Fado Firmado”. O seu blogue pessoal é “A Batuta do Olhar”. É casada e tem dois filhos.

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