Esta crónica vai começar com uma história, uma fábula para os mais pequenos, um conto que não possui quaisquer pretensões de prémios literários, até porque se trata da minha primeira tentativa, mas coragem (não minha, vossa) …


“Era uma vez uma pata, a pata Antónia (é uma fábula, tem que ter animais, mas depois do que se passou em Elvas… enfim…), recentemente descobriu uma nova arte, o tricot, e decidiu utilizar o seu novo conhecimento para fazer uma peça de roupa para si. Faz uma gola, porque a sua amiga rola lhe pediu porque tem sempre muito frio no pescoço, depois faz mais uns pontinhos e para (do verbo parar, este Acordo Ortográfico…), depois decide fazer uma manga, mas depressa desiste, por pressões externas, depois faz meio cachecol mas tem que parar porque acabou a lã.


Ao fim de 2 meses de intenso tricotar a sua nova roupa está pronta, na verdade é pouco mais de meia manga mal acabada, uma gola e meio cachecol, mas a pata Antónia decide vesti-la e vir à rua mesmo assim.


Primeiro passa pela dona galinha, que lhe diz: “olhe, acho que essa roupa não funciona muito bem”, depois passa pela dona coelha, que comenta: “gostava mais como se vestia antigamente” e finalmente a dona hamster que estava à porta da sua toca viu a pata Antónia passar e crítica: “a roupa que a pata tem vestida não faz sentido nenhum e até atrapalha”.


A pata Antónia foi para casa muito triste a pensar no que fez mal. Se calhar deveria ter planeado a roupa antes de a ter começado a fazer, se não houver planeamento, não faz sentido fazer peças de tricot avulsas…” O fim.


Depois desta pequena história que nada teve a ver com as intervenções nas avenidas República da Guiné-Bissau e Alexandre Herculano e na Praça Vitória Futebol Clube venho expressar algumas inquietações sobre estas intervenções.


Começo por uma citação do vereador André Martins que se encontra na página da CMS sobre a requalificação destes espaços: “É uma requalificação que se encontra com as atuais características urbanas” e este ainda frisa que a “visão estratégica municipal preconizada passa por garantir facilidades de acesso automóvel mas também garantir melhores condições de mobilidade para os transeuntes e cicloturistas”.


Primeiramente devo apontar que concordo com as intervenções, mas já voltamos a este tema, mas antes gostaria realmente de saber o que este senhor quis dizer com estas frases? Não foi nenhum jornalista que à porta de casa lhe perguntou sobre este tema antes do senhor ter tomado o seu primeiro café da manhã, estas são citações numa página oficial da CMS. Quais são as atuais características urbanas? E facilidades para o acesso automóvel, para o acesso pedonal e cicloviário? Facilidades para todos, sem cedências? E é só para os cicloturistas pois os cidadãos que gostariam de utilizar a bicicleta como meio de transporte têm que arranjar outro local?… Avançamos.


Concordo com este tipo de intervenção, com o aumento da mobilidade pedonal e cicloviária em detrimento da do automóvel (temos que fazer cedências, com a exceção dos políticos, esses não têm que as fazer), pois este tipo de mudança contribui positivamente para a nossa cidade.


A qualidade dos espaços de encontro em lugar público é essencial, pois permite a interação entre gerações, classes sociais e comunidades. Sem estes espaços de qualidade o cidadão acaba por se isolar, e sem ele os espaços tornam-se mais pobres.


Segundo Appleyard (um professor e teórico do urbanismo), a nossa solidão aumenta consoante o número de automóveis que passam à nossa porta. Em analogia os peões são “glóbulos vermelhos” da cidade, que se deixam de percorrer uma rua esta entra em dificuldades, degradando-se, tornando-se insegura acabando por morrer. A velocidade dos Automóveis é também um contributo para afugentar peões, e sem peões a velocidade aumenta, tornando assim a rua insegura, dando-se um círculo de morte: quanto menos peões há, menos peões haverá.


Torna-se assim necessário devolver os centros urbanos aos peões. As cidades europeias que têm maior vitalidade económica são as que tiveram a seu tempo, e que continuam a ter, estratégias de reconquista do espaço que antigamente pertencia ao automóvel. Os problemas relacionados com o trafego após a implementação de algumas medidas geralmente diminuem, além de que o padrão de comportamento dos condutores após um período de adaptação mudam, como resultado o ambiente urbano tornasse mais agradável, mais limpo, mais silencioso e seguro.


Mas por outro lado tenho receio que estas intervenções sejam apenas parte de uma manga, ou uma gola incompleta, e que por detrás não exista qualquer tipo de plano alargado, que estas obras sejam apenas movidas por um recente “conhecimento” adquirido (talvez fundos disponíveis devido ao Alegro de Setúbal), mas que no final as pessoas (devido à inexistência de planeamento global) comentem: “olhe, acho que essa rua não funciona muito bem”, “gostava mais como estava antigamente” e “essa avenida não faz sentido nenhum e até me atrapalha”… pense nisso.Fotografia de capa por steveczajka

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Rui Pereira

Membro da Direção da Associação Cultural e Artística Elucid’Arte
Nascido em Setúbal, Licenciado em Arquitetura pela Universidade Moderna de Setúbal, Licenciado em Engenharia Civil pela Escola Superior de Tecnologia do Barreiro – IPS, inscrito nas respetivas Ordens Profissionais e Doutorando em Arquitetura, especialidade de Teoria e Prática do Projeto, na Faculdade de Arquitectura – ULisboa. Domínios de atividade profissional: Gestão de projetos e obras, Auditoria e Fiscalização, Consultor e Formador. Membro da Direção da Associação Cultural e Artística Elucid’Arte desde 2008.

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