O museu não é uma cerca; poderá ser um polo, ou talvez esta seja apenas uma forma cêntrica de ordenar as coisas… Primeiro, Von Thünen, depois Christaller e os seus lugares centrais, mais tarde a teoria dos sistemas mundiais… Apesar de tudo, preservei sempre um lugar iluminado para os cruzamentos, as transversalidades, as redes de interação, acreditando menos nas hierarquias, mais na equidade e na possibilidade da sua concretização. Através da luta social, é expectável que um dia o espaço do nosso descontentamento se irrigue por inteiro, mesmo quando chegam notícias de significativos acréscimos de desigualdade social pela voz do secretário-geral da OCDE. Em Portugal, cerca de 26% da riqueza está concentrada na posse de apenas 10% da população e uma situação de pobreza crónica atinge atualmente 14% de portugueses.

Também sabemos que a riqueza de um país se constrói através da educação e da cultura e que aos museus cabe um papel fundamental nesse domínio, criando condições para a produção e fruição culturais. Em um museu público deveria ter ficado “o almoço do trolha”, de Júlio Pomar, uma das obras de referência do Neorrealismo português que foi vendida em leilão a um particular, por 350 mil euros, pois a DGPC não tinha orçamento para a sua aquisição! Exposta pela primeira vez, ainda inacabada, em 1947, quando o seu autor se encontrava detido por ação da polícia política de Salazar, no Forte de Caxias, esta obra não deixa ninguém indiferente, mesmo os não-apreciadores do movimento Neorrealista.

Rasgando a atmosfera de conformismo, alguns museus continuam a sua atividade sem as marcas de desgaste do “cá vamos indo”. Essa é a postura do Museu de Arqueologia e de Etnografia do Distrito de Setúbal, que não vacila no trabalho de difusão cultural, tendo recentemente renovado as suas exposições temporárias através da apresentação da obra de artistas visuais que também não hesitam em prosseguir o seu trabalho, rompendo fronteiras quer mentais quer físicas, interagindo com novos territórios e seus públicos, em evidente recusa de uma qualquer fatalidade de periferização geoestratégica.

A ver, Redemption, de Fábio Roque, que admite não se atingir a salvação por adaptação a um mundo socialmente desregulado e nos propõe uma viagem de reflexão crítica através do seu próprio percurso nesse mundo complexo.

Continue a sua visita por Terra Cinza Revisitada de Miguel Proença. O fotógrafo traz para a luz o “território de ninguém” da Serra Algarvia, tão perto de tudo e no entanto desertificado, empobrecido e violentamente queimado pelos incêndios estivais como se fosse mero cadinho de fundição de experiências inúteis, de algum espírito maléfico de filme de terror. Um país que teima em prosseguir a várias velocidades? Porquê? Na defesa de que interesses?

No caminho, entre as duas mostras, pare e veja os extraordinários vídeos-arte de Rogério Paulo da Silva, como se o tempo invertesse a marcha e pudéssemos revisitar os longos verões da nossa infância, com praia e gaivotas tão vivas e reais como as que pousam nos cais de Setúbal!

Para visitar a última das exposições temporárias, atravesse com a demora possível a galeria dedicada à Arqueologia Regional, onde o Passado longo é contado pela sua cultura material.

Finalmente, encontre-se com Trajectos Cruzados de Luís Filipe Rodrigues. Deixe-se levar pelas suas veredas infindáveis, resultantes da desconstrução de texturas (leia-se realidades ou espaços), antes tecidas linha a linha. Qual Penélope, o autor constrói um projeto de felicidade ora juntando linhas na urdidura do tear, ora desconstruindo a teia para que a esperança não morra na manhã seguinte.

Imagem: “O Almoço do Trolha”, Júlio Pomar, 1947/1950. (cf. http://www.acorianooriental.pt/noticia/destino-de-o-almoco-do-trolha-devia-ser-um-museu)
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Joaquina Soares

Diretora do MAEDS
Doutorada em História, especialidade de Pré-história na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com a tese Transformações sociais durante o III milénio AC no Sul de Portugal. O povoado do Porto das Carretas. Pós-graduação em Museologia pela Universidade Lusófona; Curso de Mestrado em Geografia Humana e Planeamento Regional e Local, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Licenciatura em Geografia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigadora integrada da UNIARQ, Universidade de Lisboa.

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