O ato de comunicar parece ser um ato básico. No entanto, representa uma condição que pode e deve ser aperfeiçoada ao longo da vida mas que nem sempre é conseguida. Para que uma boa comunicação se dê é necessário ter presente algumas premissas chaves essenciais na arte de transformar em palavras aquilo que se pensa.

No contexto da saúde, é fundamental que os profissionais tenham a possibilidade de adquirir e aperfeiçoar competências a esse nível. A aquisição de competências comunicacionais permite com que se seja capaz de expressar, de forma clara, as ideias e opiniões e, por outro, encoraja os nossos doentes a darem a conhecer as suas próprias necessidades.

Porém, para além da arte em conseguir transformar por palavras o que estamos a pensar, existe também arte no saber ouvir. Muitas vezes, é através da linguagem não-verbal que percebemos que o outro está ou não disponível para receber a nossa mensagem. Conseguimos, por exemplo, perceber isso através do olhar ou da forma como a pessoa se movimenta. É aí que ocorre a chamada linguagem subliminar, ou seja, aquela na qual além da mensagem das palavras propriamente ditas, passa-se, também, mais alguma coisa, seja através do tom da fala, de algum gesto etc.

Saber comunicar implica, necessariamente, saber ouvir. Como costumo dizer, agora na condição de terapeuta familiar, o segredo das relações encontra-se aliado a essa competência. Associado à falta ou falha na comunicação estão os mal-entendidos. A maioria acontece, exatamente, pelo facto das pessoas adotarem formas de ineficazes de comunicar. A consequência dessa ineficácia faz com que as pessoas se afastem, desinvestiam e deixar de acreditar.

Por fim, resta-me acrescentar que, até para o simples de comunicar e saber ouvir, é preciso ter disponibilidade. Muitas são as vezes em que a comunicação não se dá, simplesmente porque não há uma disponibilidade genuína para resolver o problema ou esclarecer determinada situação.

Comunicar implicar marcar posição, implica expor uma opinião e lutar pelos direitos através, também, da arte em saber ouvir o outro e, acima de tudo, em aprender a ouvir-se a si próprio.

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Ana Cardoso

Psicopedagoga na clínica da família (Setúbal); investigadora no Centro de Estudos de Doenças Crónicas (FCM-UNL).
Desde 1999 que trabalha na área da saúde mental. Exerceu funções clínicas no Hospital Miguel Bombarda até 2007. Desde essa altura que tem colaborado com o departamento de saúde mental da Faculdade de Ciências Médicas, participando em vários projectos de investigação científica (avaliação de necessidades, intervenções familiares, doenças neuropsiquiátricas, adesão ao tratamento). Mestrado em Saúde Mental pela FCM. Várias publicações científicas realizadas na área da saúde mental.

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