No passado dia 16 de julho, celebrou-se o 40.º aniversário da criação da Diocese de Setúbal. Poder-se-á pensar que se trata de uma efeméride que apenas interessa aos católicos. Não é bem assim. Mesmo que se pense que a religião é um espaço da vida privada de cada um e que as suas implicações se devem confinar aos templos, quem a professa não pode desligá-la da sua vida quotidiana. Foi por causa do divórcio entre a religião e a vida que Marx a acusou de ser o “ópio do povo”. Ninguém pode ser religioso para se alienar da vida onde ela se concretiza. Pelo contrário, deve assumir maior responsabilidade na construção da cidade terrestre, trabalhando pela sua transformação para que esta se conforme mais à Cidade de Deus. A propósito das implicações da fé católica, alguém disse que “Igreja que não serve, não serve para nada”. Por outro lado, é na medida em que a religião se torna vida, que ela é mais autêntica e demonstra a maturidade dos seus praticantes.

É o reconhecimento desta maioridade cristã que permite a criação de uma diocese. Foi o que aconteceu, há 40 anos, na comunidade católica habitante da Península de Setúbal e na extremidade norte da Península de Troia. Até chegar a ser Diocese, os cristãos católicos, residentes nesta região de Portugal, tiveram que demonstrar, na vida, que eram capazes de habitar “em casa (ecclesia) própria”. Para isso, foi necessário dar credibilidade à vida religiosa, não a reduzindo a rituais litúrgicos, mas apoiando-a numa fé feita compromisso com as realidades terrestres. Apesar de ter despertado muitos anos antes, a Diocese de Setúbal desabrochou e amadureceu a partir de 1966, com a nomeação de um insigne sacerdote do Patriarcado de Lisboa, ao qual pertenciam os católicos da região de Setúbal, para alimentar esse tão necessário processo de amadurecimento.

A estava a exigir um empenhamento maior por parte dos católicos, pois acentuava-se a sua vocação industrial que ocasionou uma grande explosão demográfica, dando origem a um proletariado muito consciente e ativo, bem como a uma miscigenação cultural resultante dos fluxos migratório internos e das, então, colónias portuguesas. Conhecia muito bem esta realidade o referido sacerdote – João Alves – que, em 1975, foi chamado a ser bispo em Coimbra. Foi ele o discreto e grande obreiro da diocese sadina. Sopravam, também, de feição para a Igreja, ventos novos dado que, um ano antes da sua nomeação, tinha terminado o Concílio Ecuménico Vaticano II que lançou enormes desafios, muitos deles – quiçá os mais importantes – ainda por concretizar. Foi à luz das orientações deste Concílio que João Alves foi definindo as suas estratégias e realizações pastorais.

Tão eficaz foi a sua missão que os católicos a ele confiados se empenharam, fortemente, na sua autonomia e maturidade cristãs, dando contributos para a organização das novas estruturas eclesiais e para o perfil do primeiro bispo. Este fervoroso e entusiástico envolvimento foi coroado do inesquecível júbilo de todos, no dia 16 de julho de 1975. Com o anúncio da criação da diocese foi, também, divulgado o nome do seu 1.º Bispo. O que “arrefeceu” tão jubiloso entusiasmo Ninguém o conhecia, mas bastou ser originário do Porto para suscitar receios e contrariar as expetativas.

Se os católicos ficaram receosos, mais defraudados se sentiram os que não o eram, tendo, mesmo, alguns deles, no dia da tomada de posse, feito uma ruidosa manifestação de protesto à entrada da Sé Catedral.

Uma boa parte desses medos dissipou-se logo nesse dia. D. Manuel Martins afirmou, com convincente veemência, que tinha nascido bispo em Setúbal, passando a ser, por isso, da nossa terra, nela, e a partir dela, anunciaria o Evangelho da justiça e da paz. Isso mesmo começou a concretizar-se em várias circunstâncias sendo, a mais evidente, a solidariedade feita de partilhas e de denúncias das consequências da crise petrolífera do Golfo Pérsico que atingiu, dramaticamente, a Região de Setúbal. Sobre tudo isso daremos testemunho, daqui a 3 meses, quando se assinalarem os 40 anos da ordenação episcopal e tomada de posse de D. Manuel.

Em 1998, antecipando-se à data canonicamente estabelecida, pediu ao Santo Padre que o dispensasse do governo da diocese.

Em 21 de junho, toma posse o novo bispo. Vem também do Porto, onde era Bispo Auxiliar, com uma riquíssima experiência pastoral como pároco de Chaves aonde realizou uma notável obra evangelizadora. Tem sido um pastor incansável, revelando preocupações que têm vindo a ser incentivadas pelo atual papa. A prová-lo estão as suas declarações à Agência Ecclesia quando celebrou as bodas de prata episcopais ao afirmar: “sinto que a diocese continua muito fechada dentro em si mesma. Apesar dos esforços, que me agradam muito, que louvo nos leigos e no clero, continua fechada. Continua a gastar muitas energias com o que está dentro, em vez de ir para fora. As pessoas são muito boas, mas não basta esta bondade que vem da fé. É preciso conhecê-la para um diálogo com o mundo”.

Nenhuma Igreja diocesana cumprirá a sua missão se não estiver atenta às “alegrias e às esperanças, às tristezas e às angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem” (Gaudium et Spes 1). Para Dioceses como a de Setúbal estes tipo de desígnios são incontornáveis. Que os católicos de Setúbal aproveitem a celebração dos 40 anos da sua Igreja Particular para satisfazerem o legítimo e oportuno desejo do seu bispo.

Fotografia de Effervescing Elephant

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Eugénio Fonseca

Presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal e da Cáritas Portuguesa
Nasceu em Setúbal, onde ainda reside, no seio de uma família católica e de origem humilde, cujo rendimento vinha do trabalho na pesca e na indústria conserveira. Com os irmãos fez um percurso de crescimento consciente das dificuldades dos seus pais e do enorme esforço para que os estudos estivessem sempre em primeiro lugar. Assim prosseguiu os seus estudos tendo completado a licenciatura em Ciências Religiosas pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. No âmbito social e eclesial tem assumido, desde a juventude, várias responsabilidades com destaque para a presidência da direção da Cáritas Diocesana de Setúbal, cargo que exerce desde 1987 e a presidência da Cáritas Portuguesa, desde 1999. O seu trabalho e empenho na luta pela justiça social, tem sido reconhecida de várias formas pela sociedade civil, religiosa e política. Em 10 de Junho de 2007 foi agraciado por S. Ex.cia o Senhor Presidente da República com a Ordem de Mérito de Grande Oficial. Em 2014 tomou posse como vogal do Conselho das Ordens de Mérito Civil. É também professor do ensino secundário.

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