Fig.1 - Aspecto da exposição itinerante “O Desperdício ou a Ruptura do Homem com o Meio”, organizada pelo MAEDS nos anos 80 do século XX.

Fig.1 – Aspecto da exposição itinerante “O Desperdício ou a Ruptura do Homem com o Meio”, organizada pelo MAEDS nos anos 80 do século XX.

Focados nas grandes questões ambientais, que passam nomeadamente pela conservação da biodiversidade e pela gestão conservacionista de recursos escassos como os alimentos ou a água, verificamos que na práctica aquelas problemáticas não são ainda tratadas com determinação pelos poderes públicos como seria expectável, sendo sobretudo da sociedade civil que nos chegam iniciativas de luta contra o desperdício, algumas com assinalável êxito, como a Refood e a Zero Desperdício. O Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS) inscreve, nos programas de divulgação cultural do seu Serviço Educativo, o debate sobre esta questão, desde os anos 80 (1988), tendo produzido para o efeito a exposição itinerante “O Desperdício ou a Ruptura do Homem com o Meio”, vista e debatida por milhares de alunos do Distrito de Setúbal (Fig. 1).

Os recentes dados divulgados sobre o desperdício são exemplo eloquente da anterior afirmação. Os alimentos actualmente descartados na Europa chegariam para alimentar 200 milhões de pessoas e na sua produção são gastos, igualmente para nada, 173 mil milhões de metros cúbicos anuais de água, ou seja, 24% de toda a água utilizada na agricultura (Revista do Expresso de 28 de Março de 2015, p. 24; Relatório da FAO, 2011); em Portugal, cerca de 17% da produção nacional de alimentos destinados ao consumo humano são desperdiçados.

Nas sociedades modernas, onde a conflitualidade e competição saturam todos os níveis das relações humanas, sobrepondo-se às demais formas de interacção social, a realidade surge fragmentada e fragmentária, sendo difícil apreendê-la e pensá-la holisticamente. A instituição museológica constitui-se como um dos raros espaços onde assumidamente se criam condições para a promoção do “pensar global” e para o estímulo da acção de escala local e mesmo comunitária. Por outras palavras, o Museu ensina os caminhos da transdisciplinaridade, incrementando articulações inesperadas entre ciência e arte, arquitectura e patrimónios, investigação-educação-lazer-turismo.

Fig. 2 - ALLGARVE, desenho a lápis s/papel de Emília Nadal, 1979

Fig. 2 – ALLGARVE, desenho a lápis s/papel de Emília Nadal, 1979

A actividade museológica do museu da nossa Região, o MAEDS, assenta no princípio programático da integração das dimensões económica, social, ecológica político-ideológica no sistema cultural, desenvolvendo projectos e acções onde aquelas componentes se entrosam e permitem reconfigurações criticas e participadas da representação do mundo em que vivemos ou daquele em que gostaríamos de viver.

Tendo o ICOM/UNESCO escolhido para o Dia Internacional dos Museus de 2015, o tema Museus para uma Sociedade Sustentável, deciciu o MAEDS responder ao desafio através da organização, pelo seu Serviço Educativo, de ateliês pedagógicos sobre reciclagem, abertos à livre participação da população escolar dos diversos graus de ensino, utilizando como suporte artístico e informativo a exposição temporária por si produzida sobre a obra da artista plástica Emília Nadal, pintora que tem dedicado particular ênfase aos efeitos nefastos da sociedade de consumo, da massificação e também da desregulação e manipulação abusiva do mercado sobre recursos e consumidores, alertando para o desequilíbrio ambiental e mesmo para a corrosão dos valores democráticos. Sobre esta exposição escrevemos no respectivo catálogo:

Emília Nadal afirma-se não só como uma artista plástica singular, com vasto curriculum, mas também na comunicação escrita, com destaque para textos sobre educação, ensino artístico, violência contra as Mulheres. Na sua participação cívica destacam-se a integração em diversas comissões governamentais destinadas à análise da educação e do ensino artístico. Merece igualmente destaque a acção de democratização do ensino e da fruição públicas das artes visuais, na Sociedade Nacional de Belas Artes onde desempenha presentemente o cargo de Presidente da Assembleia Geral e anteriormente o de Presidente da Direcção.

Fig. 3 - Embalagens recicladas/colagens de Emília Nadal – “Produtos Emergentes”: CorrupTyL; Pró-CorrpTyL; Anti-CorrupTyL ZÁS!-desinfestante; ZÁS! Detergente; ZÁS! Desinfestante, 2010-2015

Fig. 3 – Embalagens recicladas/colagens de Emília Nadal – “Produtos Emergentes”: CorrupTyL; Pró-CorrpTyL; Anti-CorrupTyL ZÁS!-desinfestante; ZÁS! Detergente; ZÁS! Desinfestante, 2010-2015

As obras expostas permitem observar ecos da matricial cultura visual mediterrânea, em especial da italiana e catalã, com revisitações da Flandres (J. Bosch), do mundo luminoso de Turner, do cosmopolitismo da Pop Art americana (Andy Warhol, Tom Wesselmann, Roy Lichenstein). Emília Nadal move-se em oposição dialéctica entre geometrismo, estabilidade, busca de equilíbrio e de rigor (caixa, pêndulo, fio de prumo) de remota influência italianizante (Piero della Francesca) e as suas oblíquas de luz em trânsito para o infinito, que atravessam e instabilizam a aparente solidez das coisas e das ideias. Uma terceira camada impõe-se na construção da narrativa pictórica de Nadal que compele à observação crítica da sociedade de consumo massificada, do seu ritmo triturador da condição humana, das patologias do contexto scioopolítico de pertença mais próximo, usando uma imagética realista em aparente mimetismo com as imagens icónicas dessa realidade social, mas estética e eticamente transformadas pelo génio criativo (Figs. 2-3).

Em suma, o MAEDS tem em curso um programa educativo em que ocorre a integração da arte, da informação ambiental e sociopolítica ao serviço da difusão do conceito de desenvolvimento sustentável, mostrando que pensar e criar à “boa maneira renascentista” pode não ser um total anacronismo…De qualquer forma, integrar é indispensável.

Fotografia de capa por USDAgov

Nota: a autora não escreve com o Novo Acordo Ortográfico.
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Joaquina Soares

Diretora do MAEDS
Doutorada em História, especialidade de Pré-história na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com a tese Transformações sociais durante o III milénio AC no Sul de Portugal. O povoado do Porto das Carretas. Pós-graduação em Museologia pela Universidade Lusófona; Curso de Mestrado em Geografia Humana e Planeamento Regional e Local, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Licenciatura em Geografia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigadora integrada da UNIARQ, Universidade de Lisboa.

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