No âmbito do acolhimento de uma animadora juvenil polaca que quis conhecer o trabalho da Rato – ADCC e uma metodologia desenvolvida pela associação no domínio do diálogo estruturado, decidimos aplicar a metodologia para criar políticas de informação juvenil sobre oportunidades europeias nos domínios da Educação, Formação e Mobilidade.


Ao abordarmos este tópico, tentámos entender o impacto de programas Europeus na península de Setúbal, nomeadamente o impacto do programa Erasmus+ – Juventude em Acção. A forma mais directa de aferir este impacto é olhar para a selecção de projectos aprovados por este programa. Quando olhei para os números compilados, lembrei-me de Gonçalo Regalado, o antigo director do Programa Juventude em Acção, que falava de uma “alegoria da mina” sobre a qual tive a oportunidade de comentar no artigo “A alegoria da mina”, neste mesmo espaço de opinião.


Ora, com base nos números do Programa Erasmus+, a imagem de um país inclinado para o lítoral sobretudo para as áreas metropolitanas tem uma excepção – Setúbal. Os números são números e a verdade é que podem ser interpretados de várias formas ou reduzir uma realidade complexa – no entanto, estes números indicam claramente uma coisa: apesar de ser o quarto distrito com mais população jovem no país, o ranking de Setúbal é medíocre – em nenhuma das acções-chave fica acima do oitavo lugar e este é só um dos dados estatísticos que evidencia que a fraca implantação do Programa Erasmus+ – Juventude em Acção na península de Setúbal.


Lisboa, Porto e Braga continuam a assumir uma posição cimeira e por isso mesmo a luta pela “democratização geográfica” deste programa na área da Juventude não faz muito sentido – afinal, as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto continuam a ter índices de aprovação altos – com a excepção do distrito de Setúbal…


Podemos não concordar sobre as razões pelas quais isto acontece mas todos os atores sociais envolvidos com o programa Erasmus+ – Juventude em Acção no distrito de Setúbal têm a obrigação em reflectir e actuar para corrigir esta situação – não podem fazer de conta que o problema não existe ou então meterem a cabeça debaixo da areia, fazendo com que este tratamento que é dado ao distrito de Setúbal se perpetue.


E se há alguém que tem a obrigação em pensar nisto é a equipa da Agência Nacional para a Gestão do Programa Erasmus+ – Juventude em Acção: as pessoas na Agência têm a obrigação em questionar o seu próprio trabalho e ter coragem em ultrapassar os seus preconceitos, caso existam…


Não acho que Setúbal seja mais importante que qualquer outro distrito de Portugal – porém quem pensar que a realidade social dos jovens na península de Setúbal é feita de privilégios está profundamente enganado. E ignorar os jovens desta região é discriminar uma parte significativa da população jovem de Portugal. Setúbal faz parte de Portugal.


Não estou minimamente interessado na “crucificação” da agência nacional do programa Erasmus+ – Juventude em Acção porém têm que haver um questionamento sobre esta situação. E perante estas perguntas têm que haver respostas… têm que haver mudanças.

Fotografia de capa por Adam Tinworth

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Nuno Carvalho

Formador profissional
Nuno Carvalho é formador profissional e tem desenvolvido um trabalho na área da Educação Não Formal associada às Tecnologias de Informação e Comunicação. Foi um dos fundadores da Rato - Associação para a Divulgação Cultural e Científica, que tem desenvolvido um trabalho no domínio da inclusão literacia digitais.

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